O falso milagre do corte de gastos públicos
Ainda é comum encontrar gestores que se orgulham de sentar no cofre e anunciar cortes drásticos como prova de responsabilidade fiscal. Essa mentalidade, típica de uma administração das antigas, trata a gestão pública como se fosse apenas um caderno de contabilidade. Equilibrar contas é fundamental, mas a forma como isso se faz determina se o resultado será sustentabilidade ou paralisia.
O corte cego pode até produzir números bonitos no curto prazo (fica lindo no release), mas os efeitos colaterais não demoram a aparecer. Serviços essenciais ficam paralisados, gargalos se ampliam e a tal economia se mostra ilusória. Basta adiar investimentos, deixar a manutenção para depois e o problema volta maior e mais caro. Em alguns casos, a fórmula mágica inclui atrasar pagamentos ou até buscar caminhos para viabilizar um calote. A conta não fecha, mas o discurso de austeridade continua firme, como se tudo fosse virtude.
O resultado é perverso. Quem fornece ao governo aprende rápido que não dá para confiar em previsibilidade e passa a embutir no preço o risco de não receber, o custo de esperar meses pelo pagamento e, claro, a eterna sombra da corrupção. O cidadão, que nada tem a ver com isso, paga mais caro por menos entrega. O corte radical, vendido como remédio fiscal, acaba sendo veneno. Intoxica a credibilidade do Estado e encarece o dia a dia de quem depende dele.
A alternativa é menos vistosa para manchetes, mas muito mais eficaz. O caminho é qualificar o gasto. Direcionar recursos humanos e financeiros para onde geram valor público de verdade. Enxugar estruturas redundantes, digitalizar processos, centralizar serviços administrativos, adotar gestão por resultados. Garantir previsibilidade e transparência para que o mercado não cobre um prêmio extra só pelo risco de lidar com o governo.
Governo eficiente não é o que corta sem critério. É o que garante que cada real gasto produza retorno social. Quando o gestor entende isso, deixa de ser guardião de cofres e finalmente assume seu verdadeiro papel: construir valor público.
André Tomazetti é Gestor Público, mestre em Business Intelligence e tem mais de 11 anos de experiência na otimização e modernização do setor público.