Super El Niño, o que esperar?
Um fenômeno que indica secas, devastações e fome
As regiões mais expostas sofrem com frequência. Normalmente, quando a temperatura das águas superficiais do oceano na costa do Peru e do Equador sobe um grau centígrado, surgem secas. Elas se estendem a partir do Equador, passam pela América Central e atingem o oeste americano.
Alerta no Pacífico
Há alguns meses, os institutos responsáveis pelo monitoramento do clima no planeta observam uma massa de água com temperaturas acima de sete graus centígrados das temperaturas normais. Ela se desloca a uma profundidade que varia entre cinquenta e duzentos metros em direção à costa oriental da América do Sul.
Essa massa deve atingir o continente a partir de junho de 2026. As previsões indicam que as temperaturas do oceano podem ficar acima de dois graus centígrados, ou ainda mais altas. Esses dados colocaram o mundo em alerta.
O que se vê são análises corretas. No entanto, também surgiu uma bateria de sensacionalismo, com previsões de um novo apocalipse.
O Nordeste e as secas
E, para o semiárido, o que se pode reservar? Em primeiro lugar, chama atenção a antecipação do fenômeno. Normalmente, as temperaturas mais altas da costa do Pacífico ocorrem no período natalino. Por isso, o fenômeno recebeu o nome de El Niño, ou o Menino Jesus.
No Nordeste brasileiro, esse período coincide com a fase seca. O que pode ocorrer são temperaturas mais elevadas, evaporação intensa e desconforto térmico. Porém, é bom lembrar que o fenômeno somente causará alterações marcantes na produção agrícola se perdurar até o final do ano.
Esse cenário ainda é incerto. Para muitos, inclusive, é pouco provável. Por outro lado, é importante chamar a atenção para outro ponto: o clima no Semiárido brasileiro não depende totalmente do El Niño e da La Niña.
Ele também sofre influência de fenômenos que ocorrem no Atlântico. Entre eles, destaca-se o deslocamento de massas de ar do Norte da África em direção ao Brasil.
Risco de exagero
Isso não significa dizer que há exagero em toda a discussão. O fato é que boa parte dos renomados institutos ainda não tem dados suficientes para prever o Super El Niño tão falado pela grande mídia.
Também não há base suficiente para afirmar que um novo ciclo de secas no Nordeste brasileiro possa ser mais intenso do que o ocorrido entre 2012 e 2018.
Na realidade, é sempre importante lembrar que o normal no Semiárido não são anos seguidos de precipitações bem distribuídas e acima da média. O padrão regional inclui secas distribuídas ao longo do período chuvoso.
Essas secas são bem alcunhadas como microsecas. Normalmente, antes, eram consideradas veranicos.
O fato é que não há ano em que parte da região não sinta a falta de chuvas no segundo semestre. Isso ocorre, sobretudo, quando não houve como acumular água.
Também pesa a falta de reserva de forragem para ao menos dois anos futuros, prática comum entre pecuaristas da região. O empresário da Leite Bom, Stênio Galvão, chamou atenção para esse ponto ontem, 3 de junho de 2026, no programa Decisão, do jornalista Geraldo Freire, na Rádio CBN de Recife.
Secas previsíveis
Traduzindo o que tem sido publicado em termos comuns, espera-se mais um ciclo de secas. Ele pode ser mais intenso do que os últimos.
Ainda assim, é sempre interessante lembrar que, em poucos momentos, a região enfrentou um período de sete anos com precipitações abaixo da média anual. Normalmente, refiro-me a isso como uma seca de conotação bíblica.
É só reler os livros do Êxodo, Números e Deuteronômio e recordar as sete pragas que forçaram o faraó a deixar voltar à sua terra o povo judeu.
Entre nós, o fenômeno seca continua sendo tratado como algo fortuito. Por isso, muitas vezes, não se planeja com antecedência.
Espera-se a instalação da seca. A partir daí, criam-se os comitês de crise, de emergência ou qualquer outra denominação.
Normalmente, o que se vê é um conjunto de dezenas de ministérios trabalhando, nem sempre conectados entre si. Ao mesmo tempo, todos os governos estaduais do Nordeste, Minas e Espírito Santo mobilizam centenas de secretarias estaduais.
Também entram nesse processo os órgãos de monitoramento do clima, em nível federal e estadual. Além disso, centenas de prefeituras pressionam os governantes por regimes de excepcionalidade de gastos.
Enquanto isso, as reportagens, eivadas de vícios, insistem em mostrar o Nordeste como uma terra de miséria, pobreza e desprezo.
Gestão das secas
O fato é que o país precisa contar com um instituto, agência ou estrutura semelhante com mandato específico para gerir as secas no Brasil. Essa instituição deve ficar localizada no Semiárido, por ser a região com maior ocorrência do fenômeno.
Sem isso, o país continuará deixando de lado a boa governança. Além disso, seguirá investindo valores muito superiores ao necessário, com resultados pequenos, senão irrisórios.
Avanços visíveis
Uma constatação necessária é que a região mudou bastante nas últimas três décadas. Destacam-se os investimentos em eletrificação rural, iniciados em Pernambuco pelo governador Miguel Arraes, em seu segundo mandato, entre 1987 e 1990.
Depois, esses investimentos se ampliaram para todo o país. Em seguida, vieram os programas sociais de combate à fome e à miséria, o uso intensivo da internet e a expansão da disponibilidade de água nos ambientes urbanos, devido à transposição do São Francisco.
Também avançaram a democratização do ensino médio e superior e, consequentemente, a dinamização da economia regional. Com isso, cidades de pequeno e médio porte passaram a registrar elevados índices de crescimento.
Uma nova seca catastrófica?
Diante de um novo período de secas, o Sertão e o Agreste de Pernambuco estarão mais aptos a encarar a demanda hídrica nas torneiras de milhões de lares. A situação é bem mais adequada do que há dez anos, por exemplo.
Ainda há muito a fazer, em particular entre as comunidades rurais. No entanto, não há razão para que a humanidade entre em um cenário de risco extremo, mesmo que ocorra um aquecimento das águas do Oceano Pacífico nos níveis especulados.
