TSE manda PT detalhar gastos com militância digital
Decisão exige documentos sobre congresso partidário e projeto de mobilização virtual. Ministro ressalta que medida ainda não reconhece irregularidades.
O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou que a Federação Brasil da Esperança apresente documentos sobre duas iniciativas ligadas ao PT.
A federação, formada por PT, PCdoB e PV, terá cinco dias para entregar gravações, contratos, comprovantes financeiros e registros de comunicação.
A decisão alcança o 8º Congresso Nacional do PT, realizado entre 24 e 26 de abril, e o projeto “Porta-Vozes de Lula”.
O partido lançou a segunda iniciativa em 9 de junho para mobilizar apoiadores por meio de missões, pontuações e classificações.
Entretanto, Mendonça ressaltou que a ordem não reconhece, nesta fase, a existência de irregularidades. O tribunal ainda examinará as informações solicitadas.
Pedido partiu do PL
Mendonça atendeu parcialmente a uma representação apresentada pelo PL, partido do candidato presidencial Flávio Bolsonaro.
A legenda acusa o PT de utilizar sua estrutura e recursos partidários para coordenar conteúdos contra o senador.
Segundo o PL, integrantes do PT apresentaram, durante o congresso partidário, uma estratégia digital direcionada a Flávio Bolsonaro.
Contudo, essas afirmações representam a versão do partido autor da ação. A Justiça Eleitoral ainda não confirmou as acusações.
Por isso, a decisão busca preservar possíveis provas antes da análise sobre o mérito do processo.
Documentos exigidos
A Federação Brasil da Esperança deverá entregar as gravações integrais dos dois eventos mencionados na representação.
Além disso, Mendonça solicitou contratos e notas fiscais relacionados a serviços de comunicação, marketing e tecnologia.
A decisão também exige documentos contábeis que identifiquem a origem dos recursos usados nas iniciativas.
Consequentemente, a federação precisará informar se utilizou dinheiro do Fundo Partidário, abastecido principalmente por recursos públicos.
Sobre o “Porta-Vozes de Lula”, o TSE pediu as regras, os critérios de pontuação e a descrição das missões destinadas aos participantes.
A federação deverá detalhar ainda eventuais prêmios, benefícios ou outras vantagens oferecidas dentro do projeto.
Mobilização continua permitida
Mendonça rejeitou os pedidos mais amplos apresentados pelo PL para interromper imediatamente as atividades questionadas.
O ministro considerou que uma proibição antecipada poderia atingir de maneira desproporcional a autonomia dos partidos.
Assim, a decisão não impede militantes de promoverem debates, defenderem candidaturas ou criticarem adversários dentro dos limites legais.
Mendonça também avaliou que o uso de pontuações e missões não configura automaticamente um ilícito eleitoral.
Por outro lado, o ministro apontou uma possível irregularidade caso exista remuneração ou benefício econômico em troca de publicações políticas.
A Justiça Eleitoral deverá verificar, portanto, se o projeto apenas estimulava participação voluntária ou oferecia alguma forma de recompensa.
Uso do Fundo Partidário
O Fundo Partidário pode financiar atividades administrativas, formação política, comunicação institucional e outras despesas autorizadas pela legislação.
Entretanto, os partidos precisam comprovar a destinação dos valores por meio de documentos fiscais e prestações de contas.
Mendonça afirmou que recursos públicos não podem custear desinformação, militância digital disfarçadamente contratada ou vantagens vinculadas a publicações eleitorais.
A análise dos documentos poderá mostrar se houve dinheiro público nas iniciativas e como cada despesa foi classificada.
Porém, uma eventual presença de recursos do fundo não comprovará sozinha uma irregularidade. O tribunal também precisará examinar a finalidade dos gastos.
Campanha se aproxima
O caso avança poucos dias antes do início oficial da propaganda eleitoral nas ruas e na internet, marcado para 16 de agosto.
Além disso, partidos e federações têm até 15 de agosto para registrar formalmente suas candidaturas perante a Justiça Eleitoral.
A proximidade da campanha aumenta a relevância das disputas sobre redes sociais, impulsionamento, financiamento partidário e atuação de apoiadores.
Lula tenta a reeleição pelo PT, enquanto Flávio Bolsonaro disputa a Presidência pelo PL.
Consequentemente, os dois principais campos políticos ampliaram suas ações no TSE contra estratégias digitais e conteúdos atribuídos aos adversários.
A própria Federação Brasil da Esperança também acionou recentemente o tribunal contra o PL. A legenda alega uso irregular de recursos em publicações favoráveis a Flávio.
Cada processo, entretanto, possui fatos e pedidos próprios. Portanto, as acusações deverão receber análises independentes.
Próximos passos
A federação poderá cumprir a ordem, apresentar esclarecimentos e contestar as alegações formuladas pelo PL.
Depois, Mendonça poderá solicitar novas informações, ouvir as partes ou encaminhar o processo para decisão posterior.
O conteúdo dos documentos será decisivo para verificar a origem do dinheiro e o funcionamento da mobilização digital.
Até essa análise, não existe decisão que condene o PT, a federação ou os participantes do projeto.
Assim, o caso abre uma apuração eleitoral relevante, mas ainda permanece na fase de coleta e preservação de informações.