EUA elevam barreiras para painéis solares e chips
Nova política comercial estabelece tarifa adicional de 15% e preços mínimos para produtos ligados ao polissilício, com regras válidas a partir de dezembro.
Os Estados Unidos anunciaram novas barreiras comerciais para importações de polissilício e produtos utilizados na fabricação de painéis solares e semicondutores.
A medida, divulgada em 6 de agosto, inclui uma tarifa sobre polissilício e derivados. Além disso, estabelece preços mínimos para diferentes mercadorias.
As regras entrarão em vigor em 4 de dezembro.
Segundo o governo norte-americano, a política busca recuperar a produção doméstica e reduzir riscos nas cadeias estratégicas.
Embora não tenha o Brasil como alvo, a decisão poderá redirecionar exportações chinesas e influenciar preços, investimentos e políticas industriais em outros mercados.
Material estratégico
O polissilício possui elevado grau de pureza e funciona como matéria-prima para duas indústrias consideradas essenciais.
No setor energético, empresas utilizam o produto na fabricação de células e módulos fotovoltaicos.
Já na indústria eletrônica, o material participa da produção de componentes usados em computadores, veículos, equipamentos militares e sistemas de inteligência artificial.
A Casa Branca afirma que a capacidade norte-americana perdeu espaço durante as últimas duas décadas.
Segundo a proclamação presidencial, os Estados Unidos respondiam por metade da capacidade mundial de polissilício em 2005.
Entretanto, essa participação caiu para menos de 2% em 2024.
Além disso, o país tornou-se dependente de importações de wafers e células solares.
Preços mínimos
O novo sistema estabelece um preço mínimo de US$ 21 por quilo para o polissilício importado.
Para lingotes e wafers, o piso será de US$ 100 por quilo.
Já as células solares terão valor mínimo de US$ 0,22 por watt.
No caso dos módulos e painéis solares, a referência será de US$ 0,38 por watt.
Além disso, o governo aplicará uma tarifa sobre polissilício e derivados de 15%.
A política substitui uma medida de salvaguarda mais restrita sobre células e módulos, encerrada em fevereiro de 2026.
Por outro lado, países que adotarem mecanismos comerciais equivalentes poderão negociar condições diferentes com Washington.
Disputa com a China
A administração Trump justificou a medida com base na Seção 232 da legislação comercial norte-americana.
Esse instrumento permite restringir importações quando o governo identifica possíveis ameaças à segurança nacional.
Washington argumenta que a dependência externa pode comprometer setores ligados à energia, aos semicondutores e à inteligência artificial.
Contudo, a decisão também integra a disputa industrial com a China, principal fabricante mundial de produtos fotovoltaicos.
Empresas norte-americanas apoiaram a iniciativa porque os novos preços poderão melhorar a competitividade da produção local.
Entretanto, representantes do setor alertaram para um possível aumento das importações antes da entrada das regras em vigor.
Além disso, preços maiores podem elevar custos para desenvolvedores de projetos solares e compradores de componentes eletrônicos nos Estados Unidos.
Mercado global
A nova barreira poderá mudar novamente os destinos das exportações chinesas.
Em abril, a Reuters informou que restrições nos Estados Unidos e na Índia já direcionavam mais produtos solares chineses para África e Sudeste Asiático.
Consequentemente, empresas poderão ampliar a busca por compradores na América Latina após o início das novas regras norte-americanas.
Esse movimento pode aumentar a oferta disponível em alguns mercados.
Porém, seus efeitos dependerão do câmbio, da logística e das políticas tarifárias nacionais.
Portanto, ainda não existe uma previsão segura sobre possíveis reduções ou aumentos de preços no Brasil.
Reflexos no Brasil
O Brasil mantém forte dependência externa no setor fotovoltaico.
Uma nota técnica do Ministério do Desenvolvimento registrou, em 2024, que 99% dos painéis e componentes usados em projetos brasileiros vinham do exterior.
Ao mesmo tempo, o governo brasileiro elevou a tarifa de importação sobre módulos fotovoltaicos de 9,6% para 25% no fim daquele ano.
A Empresa de Pesquisa Energética estimou impacto aproximado de 8% sobre o investimento inicial dos sistemas, considerando o peso dos módulos nos projetos.
Assim, uma eventual ampliação da oferta chinesa não produzirá automaticamente equipamentos mais baratos para consumidores brasileiros.
Por outro lado, a reorganização do comércio mundial poderá intensificar o debate entre importadores, fabricantes nacionais e desenvolvedores de energia solar.
Os importadores defendem equipamentos acessíveis para acelerar novos projetos.
Já a indústria nacional busca proteção para ampliar produção, investimentos e empregos.
Além disso, o governo precisará conciliar a política industrial com as metas brasileiras de expansão das fontes renováveis.
Próximos passos
O Departamento de Comércio dos Estados Unidos deverá regulamentar a aplicação dos preços mínimos e da tarifa antes de dezembro.
Enquanto isso, empresas poderão antecipar compras ou reorganizar contratos para reduzir os efeitos das novas barreiras.
A China também poderá questionar a medida em fóruns comerciais ou adotar respostas direcionadas a produtos norte-americanos.
No Brasil, o principal indicador será o comportamento das importações de módulos e células durante os próximos meses.
Portanto, a decisão norte-americana amplia a disputa tecnológica e poderá alterar fluxos comerciais muito além do mercado dos Estados Unidos