Bolívia prepara reformas e acordo bilionário com FMI
Governo pretende ampliar investimentos privados e negociar financiamento de US$ 1,9 bilhão, mas enfrenta resistência no Congresso.
As reformas econômicas na Bolívia entraram numa etapa decisiva nesta terça-feira (11), com a preparação de um novo projeto sobre investimentos privados.
O presidente Rodrigo Paz deve encaminhar a proposta ao Congresso como primeira medida de um pacote direcionado à recuperação econômica.
Além disso, o governo negocia a aprovação de um acordo de US$ 1,9 bilhão com o Fundo Monetário Internacional.
Porém, a administração não possui maioria legislativa estável. Consequentemente, tanto as reformas quanto o financiamento dependerão de negociações com diferentes blocos políticos.
Investimentos
O projeto busca oferecer regras tributárias mais competitivas, garantias jurídicas e maior proteção aos contratos privados.
Segundo a Reuters, o governo propõe limitar a carga combinada de impostos e royalties sobre empresas de energia a aproximadamente 50%.
Além disso, a legislação poderá criar incentivos para novos projetos de exploração de petróleo e gás.
Outras propostas, previstas para os próximos meses, devem ampliar a participação privada nos setores de mineração, geração elétrica e comércio de energia.
Assim, as reformas econômicas na Bolívia representam uma mudança em relação ao modelo estatal adotado durante os governos do Movimento ao Socialismo.
Entre 2006 e 2012, o então presidente Evo Morales nacionalizou empresas e ativos estratégicos, especialmente no setor de hidrocarbonetos.
Agora, Rodrigo Paz pretende reduzir o papel operacional de companhias estatais, como a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos.
Contudo, o governo ainda precisará apresentar os textos completos e detalhar as garantias regulatórias oferecidas aos investidores.
Acordo com o FMI
O FMI anunciou, em 29 de julho, um acordo técnico preliminar com as autoridades bolivianas.
O programa prevê US$ 1,9 bilhão durante 36 meses. Entretanto, o Conselho Executivo do Fundo ainda precisa aprovar a operação.
O Congresso boliviano também deverá autorizar o financiamento.
Segundo o FMI, o programa busca recuperar reservas internacionais, reduzir desequilíbrios fiscais e modernizar as políticas monetária e cambial.
Além disso, o Fundo prevê recursos adicionais para programas sociais destinados às famílias mais vulneráveis.
A instituição estima que o acordo poderá mobilizar mais de US$ 5 bilhões. O valor inclui possíveis aportes de outros organismos multilaterais.
Por outro lado, parlamentares da esquerda e da direita exigem maior transparência sobre as contrapartidas assumidas pelo governo.
Os críticos querem conhecer os compromissos relacionados aos gastos públicos, ao câmbio, às estatais e aos subsídios.
Portanto, a aprovação poderá depender da divulgação integral dos documentos negociados com o Fundo.
Economia sob pressão
A economia boliviana enfrenta queda da produção de gás natural, escassez de dólares e redução das reservas internacionais.
Além disso, o FMI projeta retração econômica de 3,3% em 2026. O déficit público também supera 10% do Produto Interno Bruto.
Rodrigo Paz já reduziu despesas e subsídios aos combustíveis. Porém, essas medidas provocaram protestos e bloqueios de estradas durante o primeiro semestre.
Novas mobilizações podem ocorrer a partir de outubro, conforme organizações de transportadores, comerciantes e trabalhadores rurais.
Nesse cenário, o governo busca combinar financiamento externo, investimentos privados e redução gradual dos desequilíbrios fiscais.
Entretanto, uma recuperação duradoura também dependerá do crescimento da produção e da capacidade de pagar os novos empréstimos.
Congresso
A coalizão de Rodrigo Paz reúne setores de centro-direita, mas não controla sozinha o Congresso.
Além disso, divergências alcançam o Partido Democrata Cristão, legenda do presidente, e envolvem o vice-presidente Edmand Lara.
Outros seis blocos de centro-direita dividem as cadeiras legislativas.
Portanto, o governo negocia apoio separadamente para cada proposta.
Partidos de esquerda também mantêm representação, apesar do enfraquecimento eleitoral do Movimento ao Socialismo em 2025.
Consequentemente, o debate sobre investimentos e FMI servirá como um teste da capacidade política de Rodrigo Paz.
Impacto no Brasil
As reformas econômicas na Bolívia interessam diretamente ao Brasil, que mantém importantes relações comerciais, energéticas e fronteiriças com o país.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, a corrente comercial bilateral alcançou US$ 2,6 bilhões em 2025.
Os países também compartilham infraestrutura de gás natural e discutem novos projetos de integração energética.
Além disso, a Bolívia faz fronteira com Acre, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Por isso, instabilidade econômica, bloqueios ou mudanças regulatórias podem afetar transportes, comércio regional e empresas brasileiras.
Por outro lado, regras mais claras para investimentos podem abrir oportunidades nos setores de energia, infraestrutura, mineração e serviços.
Próximos passos
O governo deverá formalizar o envio da Lei de Investimentos e iniciar a negociação com os líderes do Congresso.
Depois, outras propostas tratarão especificamente dos setores de hidrocarbonetos, mineração e eletricidade.
Enquanto isso, o acordo com o FMI seguirá para avaliação do Conselho Executivo da instituição e dos parlamentares bolivianos.
Assim, o avanço do programa dependerá tanto das condições econômicas quanto da formação de uma maioria política em La Paz.