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    “O cano chega à rua, mas o benefício nem sempre entra em casa”, afirma especialista

    Para Einstein Paniago, Brasil falha em transformar obras, contratos e investimentos em serviço de abastecimento de água entregue à população

    O povo brasileiro deseja e espera pela universalização do saneamento. Existem leis que estabelecem prazo para que esse benefício chegue às casas, o que demanda bilhões de reais em investimentos.

    Mesmo assim, milhões de brasileiros continuam sem água tratada ou coleta e tratamento de esgoto.

    Para o professor e especialista Einstein Paniago, o problema revela uma dificuldade que vai além da falta de recursos. Segundo ele, o país consegue planejar, contratar e anunciar obras, mas ainda encontra obstáculos para transformar investimentos em serviço de saneamento entregue à população.

    “O País tem demonstrado mais habilidade para anunciar o começo da solução do que para concluir, operar e conservar o que começa”, afirma Paniago.

    O desafio do último metro

    Para o especialista, a discussão sobre saneamento precisa deixar de se concentrar apenas no volume de investimentos, no modelo de gestão ou nos prazos legais.

    Além disso, segundo Paniago, o poder público precisa entender por que aquilo que já decidiu nem sempre chega à população como serviço efetivo.

    O marco legal estabelece metas de universalização até 2033. No entanto, na avaliação do professor, definir uma meta não significa necessariamente alcançar o resultado esperado.

    O chamado “último metro” representa, para Paniago, um dos pontos em que muitas políticas públicas fracassam.

    A rede pode chegar à rua, mas a residência pode continuar sem conexão. Da mesma forma, a água pode chegar de maneira irregular.

    O sistema também pode coletar o esgoto sem garantir tratamento adequado.

    Além disso, uma estrutura pode entrar em operação e, anos depois, enfrentar problemas de manutenção.

    “Universalizar não é apenas estender o tubo até a calçada. É concluir o último metro, aquele trecho curto, opaco e decisivo em que a política pública deixa de ser mapa e se torna hábito sanitário”, alerta.

    Paniago também chama atenção para as desigualdades regionais e para as diferenças entre áreas urbanas e rurais.

    Por isso, segundo ele, discutir universalização sem considerar periferias, áreas rurais e regiões historicamente menos atendidas significa trabalhar com uma fotografia incompleta do país.

    “Investir não basta”

    Na avaliação de Paniago, um dos problemas centrais está na falta de continuidade.

    Obras de saneamento exigem planejamento de longo prazo, capacidade técnica, fiscalização, manutenção e integração entre diferentes níveis de governo.

    Quando essas etapas param, o investimento inicial pode não produzir o resultado esperado.

    “Uma adutora, uma estação de tratamento ou um interceptor de esgoto não se improvisam em uma estação do ano. Tampouco se justificam, no cotidiano administrativo, com a mesma visibilidade de uma obra de fachada. O saneamento é, em grande medida, uma infraestrutura invisível. Quando funciona, ninguém o celebra”, destaca.

    Segundo ele, existe ainda um incentivo para valorizar mais o anúncio da obra do que sua conclusão.

    Contratar, inaugurar e divulgar investimentos ganham mais visibilidade do que reduzir perdas, fazer ligações domiciliares, garantir tratamento adequado e manter redes funcionando.

    “Anunciar é mais rentável, em termos de atenção pública, do que concluir. Contratar é mais visível do que ligar o ramal. Inaugurar uma estação é mais fotogênico do que reduzir perdas em redes já existentes”, reforça.

    Impacto direto na vida

    Para Paniago, a discussão também não pode ficar restrita à infraestrutura.

    A ausência de água segura e de esgotamento sanitário interfere diretamente na saúde pública e nas condições de vida da população.

    Por isso, ele defende que gestores avaliem o sucesso da política não apenas pela quantidade de quilômetros de rede implantados ou pelo volume de recursos investidos.

    Segundo o especialista, o principal indicador deve considerar o efeito concreto do serviço de saneamento entregue à população.

    “Água segura e destino adequado dos dejetos não são meros serviços. São condições para que a liberdade de ir à escola, de trabalhar, de criar os filhos e de envelhecer com dignidade deixe de ser formalmente proclamada e passe a ser efetivamente exercida”, comenta.

    Além disso, Paniago aponta a necessidade de fortalecer a cooperação entre União, estados e municípios.

    Ele também defende melhorias na regulação e na fiscalização dos contratos.

    Nesse sentido, responsabilidade compartilhada não pode significar responsabilidade diluída.

    Continuidade como desafio

    Paniago resume o desafio em uma cobrança que ultrapassa governos e partidos: cumprir aquilo que já foi planejado.

    “O Brasil já sabe, em linhas gerais, o que precisa ser feito. Já mediu o déficit. Já associou a falta de esgoto ao adoecimento infantil. O que permanece em aberto é se teremos a paciência institucional de concluir”, afirma.

    Para ele, o saneamento representa um dos testes mais concretos da capacidade do Estado de transformar decisões em resultados.

    “Conhecimento sem compromisso vira catálogo. Compromisso sem continuidade vira promessa. Continuidade sem cuidado vira sucata”, acrescenta.

    Assim, a universalização não depende apenas de colocar mais canos no chão.

    Ela também exige fazer a rede funcionar, chegar às casas e continuar funcionando.

    “O cano precisa ultrapassar a calçada. A coragem discreta é terminar o que começou”, conclui.

    Perfil biográfico

    Einsten Paniago tem trajetória marcada pela atuação em cargos estratégicos na administração pública e em entidades de classe.

    Ao longo da carreira, acumulou experiência em áreas como governança, fiscalização, auditoria, compliance e finanças públicas.

    Também atua como contador, administrador público e professor universitário.

    Além disso, desenvolve atividades voltadas à formação técnica e à qualificação da gestão pública.

    Doutor em Direito pelo UniCEUB, mestre pela PUC Goiás e MBA pela USP, ele atualmente exerce o cargo de conselheiro federal de Contabilidade, no mandato 2026–2029.

    Por fim, com foco no desenvolvimento econômico e na modernização do Estado, defende o fortalecimento da cidadania fiscal e da eficiência na gestão pública como caminhos para melhores resultados sociais e econômicos.

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