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    Daniella Marques, o Plano Collor e as dúvidas sobre ajuste de R$ 300 bilhões

    Integrante da equipe econômica de Flávio Bolsonaro defende ajuste no início do mandato; discussão sobre cortes ainda sem detalhes completos traz à memória as consequências das decisões de 1990.

    Em março de 1990, um dia após a posse de Fernando Collor, a então ministra Zélia Cardoso de Mello anunciou um plano econômico que surpreendeu os brasileiros. O governo bloqueou grande parte dos recursos depositados em contas bancárias e poupanças. A medida, que não havia sido anunciada durante a campanha eleitoral, tornou-se um dos episódios mais controversos da história econômica do país.

    Trinta e seis anos depois, outra integrante de uma equipe econômica presidencial ocupa posição de destaque no debate sobre mudanças nas contas públicas. Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e uma das principais responsáveis pelas propostas de Flávio Bolsonaro (PL), defende um ajuste fiscal logo no início de um eventual governo do senador.

    Em entrevista à CNN Brasil, em julho, Daniella afirmou que o país precisa de um “choque de credibilidade” para recuperar a confiança dos investidores. Segundo ela, o próximo governo deverá aproveitar o capital político do começo do mandato para promover mudanças na administração pública e no controle das despesas.

    A aproximação entre os dois momentos históricos não significa que as propostas sejam equivalentes. Não há anúncio ou evidência de que Daniella ou Flávio pretendam bloquear depósitos bancários. Entretanto, a experiência de 1990 evidencia os riscos políticos e sociais de medidas econômicas de grande impacto cujos detalhes não chegam ao conhecimento dos eleitores antes da votação.

    O ajuste de Daniella Marques

    Segundo reportagem da CNN Brasil, publicada em setembro, integrantes da equipe econômica de Flávio Bolsonaro discutem uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para viabilizar um ajuste de aproximadamente R$ 300 bilhões.

    A proposta teria como objetivo conter o crescimento das despesas públicas, estabilizar a dívida e melhorar as expectativas do mercado financeiro. Além disso, seus efeitos poderiam ocorrer gradualmente, embora a equipe considere importante apresentar medidas logo na transição.

    De acordo com a reportagem, os possíveis cortes estão divididos em três grupos: medidas leves, médias e duras. Os alvos, porém, não foram detalhados publicamente pelos interlocutores ouvidos.

    Entre as possibilidades mencionadas está a revisão da vinculação constitucional de recursos à saúde e à educação. A mudança poderia alterar a forma como o governo distribui despesas entre essas áreas.

    Após a publicação, a assessoria de Daniella Marques contestou as informações atribuídas a fontes não identificadas. Em nota à CNN, a campanha afirmou que somente Daniella e Adolfo Sachsida estão autorizados a falar sobre suas propostas econômicas.

    A discussão também alcançou as regras de reajuste de aposentadorias e do Benefício de Prestação Continuada (BPC). Reportagens apontaram estudos sobre mudanças nesses mecanismos. Flávio, entretanto, negou que pretenda retirar a valorização real dos benefícios.

    Sachsida também declarou que um eventual governo manterá e fortalecerá programas sociais, incluindo Bolsa Família e BPC. Segundo ele, a contenção de despesas deverá atingir excessos administrativos e gastos considerados desnecessários.

    Daniella, por sua vez, já defendeu publicamente a reorganização da estrutura do Estado e a revisão de regras tributárias. O detalhamento de como essas medidas produziriam a economia pretendida continua sendo uma das principais questões do debate.

    O precedente de Zélia Cardoso de Mello

    A história de Zélia Cardoso de Mello ajuda a dimensionar as consequências de decisões econômicas anunciadas no início de um governo.

    Em 16 de março de 1990, a então ministra apresentou o Plano Collor, criado para enfrentar uma hiperinflação que comprometia o funcionamento da economia brasileira.

    Entre as medidas estava o bloqueio, por 18 meses, dos valores superiores a 50 mil cruzados novos em contas correntes, cadernetas de poupança e determinadas aplicações financeiras. O pacote atingiu cerca de 80% dos ativos financeiros do país.

    Famílias perderam temporariamente o acesso a recursos destinados a despesas pessoais. Empresas também enfrentaram dificuldades para cumprir compromissos financeiros e manter suas atividades.

    Além disso, a economia brasileira sofreu forte retração naquele ano. O PIB caiu 4,35%, segundo a Fundação Getulio Vargas, enquanto a inflação permaneceu elevada apesar das medidas adotadas.

    Em entrevista ao Poder360, em março de 2025, Zélia reconheceu os efeitos negativos do bloqueio e lamentou as tragédias pessoais provocadas pela decisão. A ex-ministra, contudo, sustentou que considerava a medida inevitável diante da hiperinflação.

    O episódio deixou uma questão permanente na discussão econômica brasileira: até que ponto uma decisão de grande alcance pode ser apresentada ao eleitorado sem que seus efeitos sejam conhecidos antecipadamente?

    As circunstâncias atuais são diferentes. O ajuste fiscal discutido pela equipe de Flávio não envolve, nas propostas conhecidas, qualquer bloqueio de poupança. Ainda assim, o debate sobre transparência ganha relevância diante da dimensão das mudanças em estudo.

    O histórico de Daniella na Caixa

    A trajetória de Daniella Marques também inclui uma decisão econômica que provocou controvérsia durante uma eleição presidencial.

    Em outubro de 2022, quando presidia a Caixa Econômica Federal, o banco começou a oferecer empréstimos consignados aos beneficiários do Auxílio Brasil.

    A modalidade previa juros de 3,45% ao mês, equivalentes a aproximadamente 50,2% ao ano. As parcelas eram descontadas diretamente do benefício social.

    Segundo dados obtidos pelo UOL, a Caixa concedeu R$ 7,6 bilhões nessa linha de crédito a aproximadamente 2,9 milhões de beneficiários entre o primeiro e o segundo turno das eleições.

    A concentração das operações naquele período levou o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) a pedir uma investigação sobre possível utilização eleitoral do programa.

    Em junho de 2024, entretanto, o TCU arquivou o processo. O tribunal reconheceu a veracidade dos fatos examinados, mas concluiu que não havia irregularidade.

    Agora, Daniella voltou a exercer influência sobre as decisões econômicas de uma candidatura presidencial. Além de participar da formulação das propostas de Flávio, mantém interlocução com empresários, representantes do mercado financeiro e integrantes da campanha.

    O Transmissão Política apresentou sua trajetória profissional e sua ligação com o ex-ministro Paulo Guedes em reportagem publicada em 13 de outubro.

    Leia também: Quem é Daniella Marques, nome forte da campanha de Flávio Bolsonaro?

    A experiência de 1990 não permite antecipar as decisões de um eventual governo Flávio Bolsonaro. O que se conhece até agora são propostas gerais de ajuste fiscal, declarações públicas de seus coordenadores e estudos relatados pela imprensa, parte deles contestada pela campanha.

    A definição das despesas que poderão sofrer alterações, dos valores envolvidos e dos efeitos sobre os serviços públicos permanece em aberto. Uma eventual mudança constitucional também precisará passar pelo Congresso Nacional.

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