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    Por que Donald Trump tem interesse na eleição brasileira de 2026?

    Disputa por terras raras, pressão econômica e aproximação com Flávio Bolsonaro revelam os interesses estratégicos dos Estados Unidos no futuro político do Brasil.

    A eleição presidencial brasileira de 2026 passou a ocupar um espaço incomum nos interesses de Washington. A uma semana do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), marcado para 25 de outubro, o governo de Donald Trump acompanha uma disputa que ultrapassa as diferenças ideológicas. Em jogo estão relações comerciais, influência política na América Latina e o acesso a recursos minerais essenciais para a economia mundial. O resultado das urnas poderá definir como o Brasil negociará parte de suas riquezas com os Estados Unidos nas próximas décadas.

    A riqueza brasileira na disputa entre EUA e China

    O principal interesse econômico está debaixo do solo. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil possui aproximadamente 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, ficando atrás apenas da China, com 44 milhões. Esses elementos são utilizados na fabricação de carros elétricos, turbinas eólicas, equipamentos militares, celulares e tecnologias de inteligência artificial. Embora disponha de reservas expressivas, o Brasil ainda responde por uma pequena parcela da produção mundial. A diferença entre possuir o minério e dominar sua exploração ajuda a explicar por que o país se tornou estratégico.

    Reservas de terras raras no mundo — 2026

    Estimativas em milhões de toneladas

    China44 milhões
    Brasil21 milhões
    Austrália6,3 milhões
    Estados Unidos1,9 milhão

    Fonte: USGS, Mineral Commodity Summaries 2026.
    Reservas estimadas, não produção anual.

    A importância dessas reservas cresce diante da disputa tecnológica entre Washington e Pequim. A China controla cerca de 91% do refino mundial das terras raras utilizadas em ímãs e aproximadamente 94% da fabricação desses componentes, segundo a Agência Internacional de Energia. Portanto, encontrar novos fornecedores tornou-se uma questão de segurança econômica e militar para os americanos. O Brasil oferece uma alternativa, mas existe uma diferença decisiva: vender minério bruto gera menos valor do que transformá-lo em materiais industriais. É nessa escolha que interesses estrangeiros e nacionais podem entrar em conflito.

    O avanço americano sobre o setor mineral

    Esse interesse já produziu resultados concretos. Em setembro, a empresa norte-americana USA Rare Earth concluiu a aquisição da Serra Verde, responsável pela mina Pela Ema, em Minaçu, no norte de Goiás. A operação, avaliada em aproximadamente US$ 2,8 bilhões, colocou a principal produtora comercial de terras raras do Brasil sob controle de um grupo americano. Além disso, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos destinou US$ 750 milhões a uma estrutura financeira vinculada ao fornecimento desses minerais. O negócio demonstra que a estratégia americana não depende apenas do resultado eleitoral: investimentos e contratos já estão avançando.

    EUA garantem acesso a terras raras da Serra Verde

    Mina Pela Ema, em Minaçu (GO). A operação integra a cadeia de fornecimento de terras raras da empresa norte-americana USA Rare Earth.

    A dimensão política aparece nas negociações comerciais. Em 2025, Trump impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros. Posteriormente, seu governo apresentou uma lista de 21 exigências para negociar o alívio das barreiras. O documento, revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo, incluía pedidos de informações prévias sobre transferências de ativos minerais, restrições a determinados investimentos estrangeiros e mudanças nas regras de sistemas de pagamento, além de referências às eleições de 2026. As condições não foram integralmente aceitas pelo Brasil, mas revelaram a disposição de Washington de vincular questões econômicas a decisões internas brasileiras.

    O que pode mudar com Flávio Bolsonaro

    A aproximação entre Trump e a família Bolsonaro acrescenta outra dimensão à disputa. Durante uma conferência conservadora nos Estados Unidos, em março, Flávio Bolsonaro afirmou que o Brasil poderia ajudar os americanos a reduzir a dependência da China em minerais críticos, especialmente terras raras. A declaração foi apresentada como uma oportunidade de parceria estratégica. Para Washington, um governo ideologicamente próximo poderia facilitar negociações em setores considerados prioritários. Entretanto, a afinidade política não constitui prova de que exista um acordo para entregar reservas brasileiras aos Estados Unidos. Também não permite antecipar quais condições Flávio aceitaria caso chegasse à Presidência.

    A divergência central envolve o modelo de exploração dessas riquezas. Em setembro, Lula sancionou a Lei nº 15.506, que busca incentivar o processamento dos minerais no Brasil e ampliar a participação da indústria nacional. A política também prevê mecanismos de acompanhamento de projetos estratégicos. A legislação não elimina a possibilidade de investimento estrangeiro. O debate está em saber quanto da produção, da tecnologia e dos ganhos econômicos permanecerá no país. Em entrevista reproduzida no material que deu origem a esta apuração, o general Santos Cruz, ex-ministro de Jair Bolsonaro, criticou o alinhamento político incondicional aos Estados Unidos e o classificou como “submissão voluntária”.

    A eventual vitória de Flávio Bolsonaro não daria automaticamente a Trump o controle sobre as reservas brasileiras. Contratos, regras ambientais, legislação e decisões de outros órgãos continuariam impondo limites à atuação do governo. No entanto, a eleição poderia alterar as prioridades da política externa e o equilíbrio das negociações com Washington, justamente quando os minerais estratégicos ganharam importância mundial. O Brasil continuaria dono de seus recursos naturais. A questão seria em quais condições permitiria sua exploração — e quem ficaria com a maior parte do valor produzido.

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