Em um governo, comunicar é preciso
Dois terços do primeiro ano de mandato já ficaram para trás. O discurso de “arrumar a casa” começa a perder força e abre espaço para as prioridades reais que cada gestão municipal decidiu assumir. Nesse ponto, o estilo de governar de cada prefeito já está claro para servidores, vereadores e cidadãos. E é justamente aí que um alerta se acende: o velho hábito de governar com base apenas no feeling e na improvisação, sem se apoiar em dados, não funciona mais. E, quando isso acontece, a comunicação com esses atores se torna confusa, frágil e um terreno fértil para crises.
Em um governo, comunicar é preciso. É preciso porque quem ocupa cargo público não governa sozinho, depende da confiança de quem elegeu e acompanha cada decisão. É preciso porque a mensagem não pode ser vaga nem distorcida, precisa ser clara, sustentada por dados confiáveis e capaz de traduzir em palavras simples por que determinadas escolhas foram feitas. E hoje a tecnologia está disponível justamente para apoiar esse processo, organizando informações, cruzando indicadores e ajudando a transformar números em narrativas compreensíveis.
As principais crises enfrentadas pelas gestões municipais até aqui mostram isso com clareza. Muitas poderiam ter sido evitadas ou, ao menos, mitigadas se houvesse um processo consistente de escuta, análise e planejamento orientado por dados. O diálogo típico da política, ouvir demandas, atender interesses e negociar com grupos influentes da sociedade, é legítimo e precisa existir, mas não pode ser a única base das decisões. A camada de técnica é o que dá solidez a esse processo e os números, que não mentem, são o seguro de que a gestão não vai se perder em escolhas mal calibradas. Ignorar isso é arriscar não apenas a qualidade das entregas, mas também o capital político que será testado de forma dura em 2026.
Governar olhando para os dados significa saber onde a cidade está, quais prioridades realmente pesam e como medir resultados. Significa planejar com base em evidências, executar de forma mais eficiente e prestar contas com transparência. Não basta anunciar obras ou programas com base em fórmulas repetidas do passado. É preciso mostrar de forma simples por que eles foram escolhidos, quais problemas pretendem resolver e de que forma impactam a vida da população.
Esse tipo de comunicação fortalece a confiança porque não se apoia em slogans vazios e reciclados, mas em fatos. Também porque reconhece limites: explicar um atraso, admitir um erro ou contextualizar uma dificuldade mostra responsabilidade, não fraqueza. O cidadão percebe quando há honestidade e tende a dar mais crédito a um governo que fala a verdade do que a um que tenta dourar a pílula.
Governar é também construir narrativa. É contar à população para onde se está indo, quais escolhas foram feitas no caminho e como essas escolhas se refletem no dia a dia. Só que essa narrativa precisa ser sustentada por evidências, porque são elas que estão mais próximas daquilo que a população sente na pele. Sem dados, o discurso é apenas retórica pronta para ser destroçada por adversários especialistas em dialética. Com dados, ele se torna política pública de verdade e se blinda da oposição.
É com essa visão que nasce esta coluna aqui no Transmissão Política. Um espaço para discutir gestão pública de forma clara, prática e sem jargões. A ideia é olhar para os problemas reais e propor caminhos.
André Tomazetti é Gestor Público, mestre em Business Intelligence e tem mais de 11 anos de experiência na otimização e modernização do setor público.