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    O crime virou startup, o Estado continua no fax

    O Capitão Nascimento de 2025 tiraria da conta do papa e colocaria na planilha da omissão.

    O crime no Brasil deixou de ser apenas organizado e passou a operar com inteligência. Essa mudança explica por que ele cresce enquanto o Estado perde terreno. Organização é a etapa em que processos básicos existem e funcionam; inteligência é quando esses processos aprendem com dados, ajustam incentivos, testam em pequena escala e escalam o que funciona. O crime atravessou essa fronteira com naturalidade, enquanto o Estado brasileiro ainda patina em rotinas elementares.

    Quando um aprende mais rápido, o outro necessariamente encolhe — porque estão em competição direta por território, confiança e capacidade de entregar bens e serviços. O crime é hoje o principal concorrente do Estado e, no Brasil, tem vencido essa disputa.

    Basta observar como facções e milícias passaram a substituir funções públicas em regiões onde a presença estatal é frágil. Elas oferecem crédito, impõem regras, mediam conflitos, comercializam gás, internet clandestina e segurança privada informal — ocupando espaços que o poder público abandonou no tempo e no lugar em que as pessoas precisam.

    Ao assumir essas tarefas, constroem uma forma de governança paraestatal: coercitiva e ilegal, mas percebida como eficaz por quem só enxerga resposta concreta. Essa penetração não é um acidente — é resultado de método. Essas organizações aprenderam a integrar logística, informação e caixa; coordenam equipes por WhatsApp, ajustam rotas quando a repressão muda o tabuleiro, migram para crimes de maior margem como fraudes digitais, usam drones e contrainteligência e replicam rapidamente o que dá certo.

    Em vários estados, a expansão territorial de facções e milícias nos últimos anos mostrou que o crime já trata o território como uma carteira de ativos. Diversifica riscos, fecha monopólios de serviços e reorganiza a operação quando perde um ponto estratégico. Essa é a assinatura de um adversário que opera como empresa de dados.

    Nosso Estado ficou preso na fase anterior. Embora existam ilhas de excelência, o padrão ainda é a desorganização. Sistemas que não conversam entre si impedem que uma ocorrência em uma cidade se converta em inteligência utilizável em outra. Bases de dados desatualizadas e sem interoperabilidade dificultam o trabalho de quem está na ponta.

    Processos de compra premiam esforço burocrático, não desempenho verificável. A gestão mede atividades, não impacto, e celebra a execução do orçamento mesmo quando o resultado social não aparece. Sem método, a política de segurança vira um ciclo de operações pontuais que rendem manchetes, produzem letalidade e deslocam o problema para o bairro seguinte — enquanto a estrutura de financiamento do crime permanece intacta.

    O mesmo vale para a investigação criminal, que avança pouco quando a prioridade institucional não está em esclarecer delitos com rapidez e consistência. A baixa elucidação alimenta a sensação de impunidade e reforça o cálculo do criminoso de que o risco é baixo frente ao retorno esperado.

    A comparação direta entre crime e Estado deixa o contraste ainda mais nítido. O crime trabalha com protocolos simples e incentivos claros no nível da rua, atualiza suas práticas com base em feedback imediato do território e realoca recursos com velocidade. O Estado toma decisões com informação tardia, depende de cadeias hierárquicas longas, sofre com rotatividade de equipes e troca de prioridades a cada crise.

    O crime simplifica para escalar; o Estado complica e paralisa. O crime mede o que interessa à operação; o Estado coleta dados que não orientam decisões. O crime trata pessoas como usuários de serviços; o Estado ainda enxerga o cidadão como alguém que precisa navegar em repartições. Enquanto um sofisticou sua coordenação, o outro não conseguiu organizar o básico.

    Dizer que o crime ficou inteligente não é elogio — é diagnóstico. E reconhecer esse diagnóstico é condição para inverter a curva. Nós, o Estado, precisamos sair da etapa da arrumação e entrar na etapa do aprendizado contínuo.

    Isso começa por dados vivos e interoperáveis, governados com regras claras de privacidade e controle social, para que segurança, fazenda, assistência e urbanismo compartilhem a mesma visão de território. Continua com metas orientadas por missão, e não por organograma, para que times intersecretariais trabalhem com objetivos mensais, marcos de verificação e orçamento vinculado ao resultado.

    Prossegue com compras públicas que pagam por desempenho, com indicadores independentes e auditoria de impacto — de modo que câmeras, iluminação, analytics, centros de comando e projetos sociais sejam avaliados pelo que entregam, e não pela foto da inauguração.

    Exige ainda uma política criminal que ataque o caixa do crime, priorizando crimes de alta rentabilidade como contrabando, crimes ambientais e fraudes digitais. Isso implica combinar investigação financeira, cooperação federativa e punição certeira que desorganize a capacidade de recomposição das redes.

    E precisa ser ancorado pela presença territorial do Estado, porque segurança também se produz na atenção básica de saúde que chega no tempo certo, na escola que retém jovens em risco, na fiscalização urbana que corta mercados ilícitos locais e na mediação de conflitos que impede a escalada para a violência letal.

    O debate público às vezes tenta diluir responsabilidades, alegando que o crime cresce por razões culturais ou por uma suposta inevitabilidade urbana. Essa leitura erra no alvo. O crime cresce porque aprendeu a operar com inteligência em ambientes onde o Estado se recusa a aprender.

    Quando o governo não mede o que importa, não coordena quem precisa agir junto e não paga pelo que dá resultado, o incentivo objetivo é para que poderes paraestatais atuem como substitutos imperfeitos. A boa notícia é que o efeito também vale no sentido oposto.

    Não se trata de prometer bala de prata — trata-se de elevar a capacidade estatal até o patamar em que a competição se inverta. O crime inteligente prospera porque o Estado continua analógico. Essa assimetria não é um destino, é uma escolha institucional.

    Se quisermos retomar o território, a confiança e o cotidiano, precisamos tratar a segurança como missão transversal da gestão pública — com aprendizado contínuo, decisões informadas e contratos que alinhem dinheiro com resultado.

    Não há empate nessa disputa: onde o crime ganha, o Estado perde. O movimento para virar o jogo é conhecido e já foi testado. Falta escalá-lo com seriedade e constância. Quando o Estado se torna inteligente, o crime volta ao seu papel marginal — e, nesse nível, o poder público tem obrigação de vencer.

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