Eleição silenciosa? Por que 2026 começa a ser comparada a 1994
Eleitores menos dispostos a revelar o voto e uma campanha menos visível nas ruas alimentam o paralelo, embora o cenário atual tenha diferenças importantes
A eleição de 2026 e 1994 começa a ganhar espaço em comparações sobre o comportamento do eleitor brasileiro. A poucos dias do primeiro turno, a percepção de uma campanha mais silenciosa nas ruas lembra relatos registrados há mais de três décadas.
O paralelo, porém, não está necessariamente nos candidatos ou na situação econômica. Na prática, ele aparece principalmente na menor exposição pública das preferências políticas e na dificuldade de perceber, pelas ruas, para onde caminha parte do eleitorado.
Além disso, dados recentes indicam que silêncio não significa necessariamente indecisão. Uma parcela dos brasileiros evita falar sobre política, embora grande parte já declare ter escolhido um candidato.
Eleitor mais reservado
Levantamento da Hibou Pesquisas e Insights, realizado entre 1º e 4 de setembro com 1.449 eleitores, mostrou que 47% já deixaram de comentar sobre política ou revelar o próprio voto para evitar conflitos dentro de casa.
Ao mesmo tempo, uma pesquisa Quaest divulgada na reta final mostrou que 79% dos eleitores afirmavam estar convictos da escolha para presidente.
Entre os eleitores de Lula, 86% declaravam voto definitivo. Já entre os de Flávio Bolsonaro, o percentual chegava a 82%.
Assim, os números ajudam a explicar uma característica do atual processo eleitoral: o eleitor pode estar menos disposto a declarar publicamente sua preferência sem estar indeciso.
Por isso, a ausência de adesivos, discussões ou manifestações espontâneas não permite concluir que exista uma grande parcela do eleitorado ainda procurando candidato.
Apatia em 1994
A percepção de uma eleição fria também apareceu durante a campanha presidencial de 1994.
Em abril daquele ano, seis meses antes da votação, um pronunciamento no Senado descreveu a campanha em situação de “virtual paralisação”.
Além disso, o senador Gilberto Miranda mencionou ceticismo e apatia entre os eleitores diante do processo eleitoral.
Depois da votação, um artigo publicado pela Folha de S.Paulo também discutiu o desinteresse de parte do eleitorado e a dificuldade de mobilização.
Entretanto, enquanto esse ambiente de pouca mobilização aparecia publicamente, a disputa eleitoral passava por mudanças importantes.
Virada de 1994
Lula começou 1994 liderando as pesquisas e, segundo o Atlas Histórico da FGV, manteve o favoritismo até aproximadamente a metade do ano.
Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, iniciou a disputa atrás. Em determinado momento, a distância entre os dois chegou a aproximadamente 17 pontos percentuais.
Depois disso, o Plano Real passou a ocupar papel central no cenário eleitoral.
Fernando Henrique havia comandado o Ministério da Fazenda durante a elaboração do programa de estabilização econômica.
Com a implantação da nova moeda e a redução da inflação, os efeitos do Plano Real começaram a aparecer durante a própria campanha. Segundo a FGV citada no material, a estabilização monetária e a recuperação do poder de compra ajudaram a impulsionar FHC.
Vitória no primeiro turno
A mudança foi rápida.
Lula perdeu a liderança e Fernando Henrique passou à frente. Como resultado, a eleição terminou sem necessidade de segundo turno.
Em 3 de outubro de 1994, FHC recebeu 54,28% dos votos válidos. Lula terminou com 27,04%.
Ao todo, Fernando Henrique recebeu 34.364.961 votos e venceu a Presidência ainda no primeiro turno.
Esse movimento ajuda a explicar por que a eleição de 2026 e 1994 passou a ser colocada lado a lado em algumas análises sobre campanhas aparentemente menos mobilizadas.
Ruas mudaram
Existe, porém, uma diferença importante entre a aparência das campanhas de 1994 e 2026.
As regras de propaganda eleitoral mudaram significativamente.
Em 1994, eram permitidos recursos como faixas, placas, cartazes, pinturas e inscrições em propriedades particulares. Além disso, outdoors eleitorais também podiam integrar as campanhas dentro das regras da época.
Em 2026, o cenário é mais restritivo.
Atualmente, a propaganda por outdoors é proibida. Também existem limites para materiais em imóveis, veículos e janelas residenciais.
Por isso, parte da sensação de que existem “menos eleições nas ruas” pode decorrer das próprias mudanças na legislação.
Ao mesmo tempo, a campanha migrou para celulares, redes sociais, aplicativos de mensagens, vídeos e outras plataformas digitais.
Limites da comparação
Apesar das semelhanças no comportamento aparente do eleitorado, a eleição de 2026 e 1994 também apresenta diferenças importantes.
Até agora, o cenário de 2026 não apresenta um elemento comparável ao Plano Real, que alterou profundamente a disputa eleitoral de 1994 durante a campanha.
Além disso, o silêncio nas ruas não permite concluir que exista uma movimentação eleitoral escondida em favor de determinado candidato.
O que os dados apresentados mostram é um cenário diferente: parte relevante dos eleitores evita revelar o voto, enquanto a maioria afirma já ter definido sua escolha.
Dessa forma, a comparação com 1994 ajuda a observar o comportamento eleitoral, mas não permite antecipar o resultado das urnas de 2026.