Brasil vence Japão de virada e traz à tona debate sobre dívida japonesa
País asiático, eliminado pela Seleção na Copa, enfrenta dívida elevada, juros mais altos e envelhecimento da população; cenário preocupa mercados, mas especialistas evitam falar em colapso imediato.
O Brasil venceu o Japão por 2 a 1, nesta segunda-feira (29), em Houston, e avançou no mata-mata da Copa do Mundo. A seleção japonesa abriu o placar com Kaishu Sano, ainda no primeiro tempo, mas o Brasil reagiu na etapa final. Casemiro empatou, e Gabriel Martinelli marcou o gol da virada nos acréscimos.
A partida colocou o Japão no centro das conversas no Brasil. Dentro de campo, a equipe asiática mostrou organização e chegou perto de surpreender a Seleção. Fora dele, porém, outro assunto passou a circular com força: a situação econômica japonesa.
O Japão segue entre as maiores economias do mundo. Ainda assim, o país convive há décadas com baixo crescimento, uma população cada vez mais idosa e uma das maiores dívidas públicas entre as economias avançadas.
Economia japonesa
A preocupação com o Japão não começou agora. Desde o estouro da bolha imobiliária e financeira, no início dos anos 1990, o país tenta recuperar o ritmo de crescimento que marcou sua ascensão no pós-guerra.
Durante anos, o governo japonês gastou para estimular a economia. Ao mesmo tempo, o Banco do Japão manteve juros muito baixos para incentivar crédito, consumo e investimento.
Essa política ajudou a evitar crises mais profundas. No entanto, também deixou o país dependente de dinheiro barato.
Dívida alta
Hoje, a dívida japonesa supera com folga o tamanho da própria economia. Projeções reunidas pelo FRED, com base em dados do FMI, apontam dívida bruta do governo geral em torno de 233% do PIB em 2026. Outros levantamentos colocam a relação em patamar ainda mais alto, próximo de 249% em 2025.
Na prática, isso significa que o governo precisa emitir títulos com frequência para financiar despesas e rolar compromissos antigos. Enquanto os juros estavam perto de zero, esse custo era mais administrável.
O problema é que esse cenário começou a mudar.
Juros em alta
Em junho de 2026, o Banco do Japão elevou a taxa de curto prazo para cerca de 1%, o maior nível em décadas. A decisão marcou mais uma etapa no processo de normalização da política monetária japonesa.
O aumento parece pequeno quando comparado a outros países. Para o Japão, porém, ele tem peso maior. Como a dívida é muito alta, qualquer alta nos juros aumenta o custo de financiamento do governo.
Estimativas do Ministério das Finanças citadas pela Reuters indicam que os gastos com o serviço da dívida podem subir de 31,3 trilhões de ienes em 2026 para 40,3 trilhões de ienes em 2029.
Efeito no mundo
O tema preocupa porque o Japão tem papel importante no mercado financeiro global. O país é um grande credor internacional e, por muitos anos, investidores usaram o iene barato para aplicar dinheiro em outros mercados.
Esse movimento é conhecido como carry trade. Ele funciona quando investidores tomam empréstimos em moedas de juros baixos, como o iene, e aplicam em ativos que pagam mais em outros países.
Quando os juros japoneses sobem, parte dessa conta muda. O dinheiro fica mais caro no Japão e, ao mesmo tempo, pode ficar mais atraente manter recursos dentro do próprio país.
Por isso, uma mudança forte na política japonesa pode afetar bolsas, moedas e títulos públicos fora do Japão, inclusive nos Estados Unidos.
População menor
Além da dívida e dos juros, o Japão enfrenta outro desafio: a demografia. Em 2024, o país registrou 720.988 nascimentos, o menor número da série histórica. No mesmo período, houve cerca de 1,62 milhão de mortes.
Ou seja, morreram mais de duas pessoas para cada bebê nascido. Com menos jovens e mais idosos, o país tem uma base menor de trabalhadores para sustentar aposentadorias, saúde pública e arrecadação.
Esse envelhecimento pressiona ainda mais as contas públicas e limita a capacidade de crescimento da economia.
Sem colapso imediato
Apesar dos riscos, economistas evitam tratar o Japão como um país à beira de um colapso. Parte importante da dívida está em moeda local, e boa parte dos títulos é comprada por investidores japoneses.
Além disso, o país tem instituições fortes, alta capacidade tecnológica e uma economia ainda muito relevante no mundo.
O ponto central é outro: o Japão entrou em uma fase mais delicada. A combinação de dívida elevada, juros mais altos e envelhecimento acelerado exige decisões difíceis.
A vitória do Brasil fez o Japão ganhar destaque por causa da Copa. Mas, fora dos gramados, o país asiático já vinha sendo observado de perto pelos mercados. O desempenho da economia japonesa pode parecer distante, mas decisões tomadas em Tóquio têm força para mexer com o dinheiro que circula no mundo inteiro.