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    A culpa não é das estatais, mas do uso que dão a elas

     

    Existe no Brasil um hábito quase automático de culpar as estatais por tudo que não funciona. Para muitos, basta dizer “empresa pública” para surgir a imagem de ineficiência, loteamento político e cabide de emprego. Mas essa narrativa não resiste ao teste da realidade. É claro que temos vários exemplos de mal uso dessa ferramenta, mas a regra geral é que a atuação empreendedora estatal não só tem dado certo, mas também foi decisiva ao longo da história para o desenvolvimento nacional. E talvez o caso mais emblemático seja o da Embrapa.

    Nos anos 1960, o Brasil ainda importava alimentos básicos e chegou a depender de doações internacionais. Em menos de meio século, se tornou potência agrícola mundial, exportando soja, café, carne, laranja, açúcar e milho em escala. Essa virada não foi resultado espontâneo do mercado. Foi fruto de uma aposta estatal ousada: criar uma empresa pública de pesquisa agrícola voltada para os problemas do Brasil.

    A Embrapa não se limitou a repetir fórmulas prontas. Ela inovou em três frentes. Primeiro, investiu pesado em gente. Mandou centenas de pesquisadores fazer doutorado no exterior quando o país ainda precisava de resultados imediatos. Era uma estratégia arriscada: durante anos esses profissionais estariam fora, sem entregar pesquisa. Mas o retorno foi extraordinário. Quando voltaram, trouxeram conhecimento de ponta e transformaram o quadro técnico da instituição.

    Segundo, fez escolhas estratégicas claras. Enquanto outros falavam em modernizar pequenas propriedades no Sul e Sudeste, a Embrapa olhou para o Cerrado, um bioma de solo ácido e pouco aproveitado. Foi ali que desenvolveu cultivares adaptadas, técnicas de correção do solo e manejo que permitiram transformar uma região improdutiva em celeiro global. Essa visão de longo prazo mudou a geografia da agricultura brasileira.

    Terceiro, entendeu que ciência sem política morre na prateleira. Criou uma área de comunicação sofisticada, promoveu campanhas de massa, apareceu na televisão, mobilizou jornalistas e colocou seus resultados no imaginário popular. Não por acaso sobreviveu a cortes, resistiu a governos diferentes e se consolidou como referência mundial em pesquisa agrícola.

    Esse conjunto de decisões mostra que o problema nunca foi o fato de ser estatal. O problema está em como usamos as estatais. Quando tratadas como moedas de troca em negociações partidárias, elas realmente se tornam ineficientes. Mas quando assumem um papel estratégico, com direção clara e liderança qualificada, podem ser motores de transformação.

    A Embrapa não é caso isolado. A Embraer nasceu como estatal e hoje é uma das maiores fabricantes de aviões do mundo. A Petrobras, apesar de todos os tropeços políticos, construiu capacidade tecnológica única em exploração de petróleo em águas profundas. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica tiveram papel central em financiar agricultura, habitação e crédito popular. Mesmo o BNDES, tão criticado, foi decisivo em estruturar a indústria de infraestrutura e energia.

    Esses exemplos ajudam a desmontar a falácia de que o Estado deve ser mínimo. O que precisamos não é de um Estado mínimo, incapaz de agir, mas de um Estado simples: um Estado que saiba onde deve estar, que concentre recursos no que é estratégico, que reduza burocracias inúteis e maximize impacto. Simples não significa pequeno, significa claro e eficiente.

    O caminho para enfrentar os desafios de saúde, educação, tecnologia e transição energética não está em cortar o papel do Estado até que reste um esqueleto. Está em exigir que ele seja capaz de fazer bem aquilo que só ele pode fazer. A Embrapa é um lembrete poderoso de que, quando o Estado empreende com visão e consistência, o resultado não é peso morto, mas vantagem competitiva.

    André Tomazetti é Gestor Público, mestre em Business Intelligence e tem mais de 11 anos de experiência na otimização e modernização do setor público

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