Diesel entra no radar do pós-eleição com crise global e pressão sobre importações do Brasil
Ataques a refinarias russas, restrições às exportações e conflitos no Oriente Médio reduziram a oferta mundial; Brasil depende do exterior para mais de 25% do diesel consumido.
O mercado mundial de diesel entrou em uma nova fase de pressão e começou a acender um alerta também para o Brasil. Ataques contra refinarias russas, restrições às exportações e problemas de produção no Oriente Médio reduziram a disponibilidade do combustível justamente quando várias refinarias pelo mundo já operam perto do limite.
Na França, por exemplo, 11% dos postos registraram falta de gasolina ou diesel em 18 de setembro. O presidente Emmanuel Macron afirmou que o país consome cerca de 600 mil barris de diesel por dia e importa aproximadamente metade desse volume. O episódio mostra como a disputa pelo combustível começa a atingir grandes economias importadoras.
Rússia reduz oferta
A situação ficou mais apertada depois que a Rússia restringiu suas exportações de diesel. O país é o segundo maior exportador mundial do combustível e fornecia volumes importantes para mercados como Brasil e Turquia antes das restrições.
Os ataques ucranianos também atingiram parte importante da infraestrutura russa. No domingo (20), uma refinaria de Moscou interrompeu o processamento de petróleo após um ataque com drones. A unidade produziu 3,2 milhões de toneladas de diesel em 2024 e pode levar semanas para retomar totalmente as operações.
Donald Trump afirmou na segunda-feira (21) que a Rússia havia “perdido o controle” de seu setor de diesel em razão dos ataques às refinarias. A declaração é uma avaliação do presidente americano. Dados do mercado confirmam, porém, que várias unidades russas tiveram sua produção reduzida e que Moscou restringiu as exportações.
Por que isso preocupa o Brasil
O ponto mais sensível é que o Brasil não produz todo o diesel que consome. Mais de 25% da demanda brasileira depende de combustível importado, segundo o Ministério da Fazenda.
Além disso, a Rússia ganhou grande importância no abastecimento brasileiro neste ano. Em março e abril, por exemplo, respondeu por 81,25% do valor das importações brasileiras de diesel. Em maio, ainda representava 73% do volume comprado no exterior.
Com a redução da oferta russa, o Brasil precisa disputar cargas com outros compradores em mercados como Estados Unidos, Índia e Ásia. Isso ocorre justamente quando os preços internacionais do diesel atingem níveis recordes na Europa e nos Estados Unidos.
Importadores já encontram dificuldade
Outro problema apareceu dentro do próprio mercado brasileiro. Em 16 de setembro, a diferença entre o preço praticado pela Petrobras e o custo de importação chegou a R$ 3,89 por litro, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis.
Essa diferença diminui o interesse de empresas privadas em importar diesel, porque elas teriam dificuldade para competir com o combustível vendido internamente. O Brasil produz cerca de três quartos do que consome, mas suas refinarias já operam próximas da capacidade disponível.
No Rio Grande do Sul, produtores rurais relataram restrições e atrasos nas entregas justamente durante o início do plantio. A ANP, entretanto, afirmou que não identificou risco de desabastecimento no estado, enquanto a Petrobras informou que continua entregando os volumes contratados.
Governo cria proteção temporária
O governo federal tenta reduzir essa pressão com uma subvenção para produtores e importadores. A Petrobras aderiu ao programa e elevou formalmente seu preço do diesel em R$ 1 por litro, mas concedeu desconto do mesmo valor, mantendo o preço líquido às distribuidoras naquele momento.
O mecanismo, no entanto, é temporário. O decreto publicado em 21 de setembro estabelece vigência de até 30 dias, com possibilidade de prorrogação por mais 30 dias. O Ministério da Fazenda poderá também alterar ou interromper o benefício conforme preços, oferta e disponibilidade de recursos públicos.
É justamente aí que o período após as eleições entra no radar. Não é possível afirmar hoje que haverá falta de diesel ou um reajuste logo depois da votação. Porém, caso os preços internacionais permaneçam elevados e a oferta continue limitada, o governo terá de decidir entre ampliar os subsídios, permitir maior repasse dos preços internacionais ou adotar outras medidas para manter as importações economicamente viáveis.
Na semana de 13 a 19 de setembro, o diesel S10 já chegou a R$ 7,13 por litro na média nacional, segundo dados da ANP. Uma nova pressão sobre o combustível tende a atingir primeiro transporte rodoviário, agronegócio e logística, com possibilidade de repercussão posteriormente sobre fretes e preços de alimentos.