Por que os indecisos variam entre Quaest, Datafolha e Nexus?
Professor e estatístico Raphael Nishimura explica como as diferenças nas perguntas e na apresentação das alternativas ajudam a entender os resultados
A diferença de indecisos em Quaest, Datafolha e Nexus pode estar relacionada, entre outros fatores, à maneira como cada instituto apresenta as opções de resposta aos entrevistados. A explicação é do professor e estatístico Raphael Nishimura.
Em uma sequência de publicações no X, retomada nesta segunda-feira (28), Nishimura comparou procedimentos adotados pelos três institutos. Segundo ele, um detalhe metodológico ajuda a compreender por que os percentuais de indecisos podem variar entre levantamentos.
A questão está em saber se o pesquisador apresenta ao eleitor opções como “ainda não sei”, branco ou nulo ou se espera que o próprio entrevistado mencione essas respostas.
Opções fazem diferença
No material da Quaest analisado pelo professor, o disco de candidatos inclui três alternativas adicionais: “branco ou nulo”, “não votaria” e “ainda não sei”.
Assim, o entrevistado visualiza essas possibilidades junto aos nomes apresentados.
No Datafolha, por outro lado, o cartão mostra os candidatos sem incluir essas três opções.
Nesse caso, segundo Nishimura, o instituto registra respostas como indecisão, branco ou nulo quando o próprio eleitor as menciona.
Portanto, nos dois levantamentos o entrevistado pode informar que ainda não escolheu um candidato. A diferença está na forma como essa possibilidade chega até ele.
Quaest mostra a opção
Segundo Nishimura, essa diferença metodológica ajuda a entender os percentuais de indecisos em Quaest, Datafolha e Nexus.
Na Quaest, o entrevistado encontra explicitamente a alternativa “ainda não sei”.
Já no Datafolha, essa resposta precisa partir espontaneamente da pessoa entrevistada.
Por isso, na avaliação do professor, a Quaest tende a registrar percentuais maiores de indecisos. Em menor proporção, o mesmo efeito pode aparecer nas respostas de branco, nulo e intenção de não votar.
A análise, contudo, não determina quantos pontos percentuais de diferença entre os institutos resultam exclusivamente desse procedimento.
Tablet e cartão
Além das opções disponíveis, também muda a maneira como cada instituto coleta a resposta.
Na Quaest, conforme a explicação apresentada por Nishimura, o entrevistador entrega um tablet ao participante.
Assim, o próprio eleitor registra a escolha diretamente no equipamento.
Por esse motivo, todas as alternativas disponíveis precisam aparecer na tela.
No Datafolha, por sua vez, o entrevistado consulta um cartão e informa sua escolha ao pesquisador. Depois disso, o entrevistador registra a resposta.
Nexus usa telefone
A Nexus adota outro formato.
Segundo o questionário compartilhado por Nishimura, as entrevistas acontecem por telefone. O entrevistador apresenta os nomes dos candidatos em ordem aleatória e deve concluir a leitura antes de receber a resposta.
Entretanto, opções como “nenhum”, “branco”, “nulo”, “não sabe” e “não respondeu” aparecem no formulário com a indicação “não ler”.
Isso significa que o sistema permite registrar essas respostas caso o entrevistado as mencione. Porém, o pesquisador não deve oferecê-las durante a leitura da pergunta.
Dessa forma, o procedimento também difere daquele usado pela Quaest.
Não explica tudo
A comparação apresentada pelo professor ajuda a compreender parte das diferenças de indecisos em Quaest, Datafolha e Nexus.
Ainda assim, o material citado não mede exatamente o impacto de cada método sobre os resultados.
Ou seja, a análise não permite afirmar que toda a diferença entre os percentuais decorra apenas da apresentação ou não da opção “ainda não sei”.
O ponto levantado por Nishimura é que a formulação da pergunta e as alternativas disponíveis fazem parte da metodologia e devem entrar na leitura dos números.
Segundo turno também muda
As diferenças continuam nos cenários de segundo turno.
No questionário da Quaest apresentado pelo professor, o entrevistador cita os dois candidatos e também pergunta se a pessoa votaria em branco ou nulo ou se deixaria de votar.
Já no Datafolha e na Nexus, segundo Nishimura, essas alternativas não fazem parte da pergunta lida ao eleitor.
Entretanto, os dois institutos podem registrá-las caso o entrevistado apresente espontaneamente uma dessas respostas.
Assim, mesmo quando os institutos perguntam sobre o mesmo cenário eleitoral, a maneira de apresentar as alternativas pode variar.
Raphael Nishimura é doutor em metodologia de pesquisas e diretor de operações de amostragem no Centro de Pesquisas por Amostragem da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Além disso, atua no ensino de métodos de amostragem na instituição.