Quem era Ana Clara, menina morta aos 5 anos e citada por Lula no debate com Flávio Bolsonaro?
Policial acusado pela morte da criança ainda aguarda julgamento; senador integrou a defesa e assinou recurso apresentado ao STJ em 2024.
Ana Clara Gomes Machado tinha cinco anos quando morreu após ser atingida por disparos de fuzil, em 2 de fevereiro de 2021, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. A menina brincava na porta de casa com o irmão, de dois anos, na comunidade Monan Pequeno.
A criança chegou a receber socorro, mas morreu no Hospital Estadual Azevedo Lima. Mais de cinco anos depois, o caso voltou ao noticiário durante o debate presidencial entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado no domingo (18), pela Band.
A história de Ana Clara ganhou destaque após Lula questionar o adversário sobre sua atuação na defesa do policial acusado pelo crime. Flávio confirmou a atuação como advogado e rebateu as críticas do presidente.
Quem era Ana Clara?
Ana Clara morava com a família na comunidade Monan Pequeno. Na manhã em que morreu, estava próxima ao portão de casa, acompanhada do irmão mais novo.
Segundo a mãe, Cristiane Gomes da Silva, os filhos brincavam enquanto ela realizava tarefas domésticas. Entretanto, a rotina da família terminou quando disparos foram ouvidos durante uma ação policial.
Cristiane relatou que conseguiu proteger o filho menor. Ao procurar a menina, porém, encontrou Ana Clara caída após ser atingida.
Além disso, a mãe afirmou, em entrevistas concedidas na época, que precisou insistir para que os policiais socorressem a criança.
A morte provocou manifestações de familiares e moradores. Desde então, Cristiane cobra o julgamento do responsável pelos disparos.
O que diz a investigação?
A Polícia Militar informou que seus agentes realizavam patrulhamento quando foram atacados por homens armados. Segundo a versão apresentada pela corporação, os policiais reagiram aos tiros.
Entretanto, moradores contestaram esse relato e afirmaram que não havia confronto armado no momento em que Ana Clara foi atingida.
A investigação identificou contradições entre depoimentos e elementos reunidos no local. Além disso, documentos judiciais registraram suspeitas de alteração da cena do crime.
O Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou o cabo Bruno Dias Delaroli por homicídio com dolo eventual. Nesse enquadramento, a acusação sustenta que o agente assumiu o risco de causar a morte ao disparar em uma área residencial.
Por outro lado, a defesa afirma que o policial reagiu a uma agressão armada.
Delaroli chegou a ser preso, mas posteriormente passou a responder ao processo em liberdade. Até outubro de 2026, não havia ocorrido julgamento pelo Tribunal do Júri.
Ligação com Flávio
A relação entre Flávio Bolsonaro e o caso Ana Clara ocorreu por meio da atuação jurídica do senador na defesa de Bruno Dias Delaroli.
Flávio, que possui inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil, integrou a equipe de advogados do policial. Em 2024, assinou um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).
O objetivo era contestar a decisão que encaminhava Delaroli para julgamento pelo Tribunal do Júri. Entretanto, o pedido não obteve êxito.
É importante distinguir os procedimentos. O recurso assinado por Flávio em 2024 tratava da decisão de levar o acusado a julgamento popular, e não da prisão preventiva anteriormente decretada.
Além disso, a atuação de um advogado na defesa de um acusado constitui uma garantia prevista no ordenamento jurídico brasileiro. Portanto, a participação de Flávio no processo não significa envolvimento no crime investigado.
Confronto no debate
A história de Ana Clara voltou ao centro das discussões durante o debate da Band entre Lula e Flávio Bolsonaro.
No confronto, Lula questionou a participação do adversário na defesa do policial. Além disso, afirmou que o senador teria atuado para impedir a prisão do acusado.
A documentação conhecida sobre a participação de Flávio, porém, registra sua assinatura em um recurso de 2024 contra a decisão de levar Delaroli ao Tribunal do Júri.
Por sua vez, Flávio rebateu a acusação de Lula e defendeu o direito de qualquer pessoa contar com assistência jurídica.
O senador também criticou o presidente por tratar o policial como culpado antes de uma condenação judicial.
Dessa forma, o debate reuniu duas questões diferentes: a responsabilidade criminal do policial, ainda submetida à Justiça, e a atuação profissional de Flávio na defesa do acusado.
Julgamento pendente
Antes do debate, o caso Ana Clara havia voltado a ganhar repercussão com o documentário O Julgamento que Nunca Aconteceu, lançado em setembro.
Apresentado pela atriz Camila Pitanga, o episódio da série Revelando recupera a história da menina e traz o relato de sua mãe.
Além disso, a produção aborda a demora para a realização do Tribunal do Júri e examina a atuação dos advogados no processo.
Apesar da repercussão nacional, Bruno Dias Delaroli ainda não havia sido julgado até outubro de 2026.
A Justiça deverá decidir sobre a responsabilidade criminal do policial. Enquanto isso, a família de Ana Clara continua aguardando o julgamento da morte da menina.