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    A crise da Venezuela e o desafio sul-americano no século XXI: soberania, bem comum e responsabilidade regional

    A situação venezuelana persiste, há anos, como uma das questões mais urgentes do continente sul-americano. Entender o que se passa ali não é apenas um exercício de política externa ou de sensibilidade humanitária; é compreender a própria anatomia política da América do Sul, suas fragilidades históricas, seus vícios institucionais e suas tensões com os grandes centros de poder mundial. Quando olhamos para a Venezuela, olhamos, ao mesmo tempo, para um espelho — ainda que distorcido — da nossa própria condição continental.

    A análise da crise exige cautela, porque não se trata apenas de opor governo e oposição, nem de escolher entre versões ideológicas prontas. O que está em jogo é o funcionamento profundo das instituições políticas, o sentido real da soberania nacional, o papel da comunidade internacional e o destino de milhões de pessoas que sofrem as consequências diretas do colapso social, econômico e estatal.

    Soberania, legitimidade e o bem comum

    A soberania nacional, por definição, é o poder que o Estado exerce sobre seu território e população. Mas esse poder não nasce do nada: ele repousa sobre uma sociedade que o antecede e lhe dá finalidade. O Estado não cria a sociedade; é esta que justifica o Estado, e sua razão de ser não é a autopreservação, mas o bem comum.

    Isso significa que a soberania não é absoluta. Um exercício abusivo do poder — mesmo que ancorado em discursos de “vontade popular” — deixa de ser legítimo quando desvia de sua finalidade natural. A crítica de José Pedro Galvão de Sousa ajuda a compreender esse ponto: as revoluções modernas, embora tenham derrubado monarquias absolutas, não restauraram a organização social intermediária que garantia limites concretos ao poder. Apenas trocaram o fundamento do absolutismo: antes, era a razão de Estado; depois, passou a ser a suposta vontade popular, que, na prática, se converteu na vontade ilimitada dos governantes de ocasião.

    Quando um governo, seja qual for sua coloração ideológica, rompe laços sociais naturais e concentra em si toda capacidade de decisão, ele se aproxima desse modelo de poder absoluto. E aqui começamos a entender a crise venezuelana.

    A deterioração interna da Venezuela

    A crise venezuelana não pode ser compreendida apenas a partir das sanções internacionais ou das pressões externas, embora estas tenham desempenhado papel importante no agravamento da situação. A origem do problema está na erosão interna das instituições, na supressão dos corpos intermediários, no enfraquecimento das garantias sociais e políticas e na incapacidade do Estado de promover aquilo que justifica a própria soberania: o bem comum.

    A crise econômica e humanitária — marcada pela hiperinflação, pela escassez, pela deterioração dos serviços essenciais e pelo êxodo de milhões de cidadãos — não é apenas um colapso administrativo; é uma consequência de um modelo político que reduz a sociedade à condição de dependente do Estado, e o Estado à condição de instrumento da cúpula governante.

    Segundo estimativas internacionais compiladas por organismos humanitários, quase 7,9 milhões de pessoas venezuelanas vivem atualmente fora do país entre refugiados e migrantes, um êxodo que impõe pressões significativas a várias nações vizinhas.

    Em termos macroeconômicos, o quadro segue frágil: para 2025 o Fundo Monetário Internacional (IMF) projeta um crescimento muito tímido (em torno de 0,5% do PIB) e uma inflação anual extraordinariamente elevada (a projeção de variação média de preços para 2025 é da ordem de, aproximadamente, 270%), o que confirma que, apesar de sinais de estabilização pontual, a Venezuela ainda vive um regime inflacionário severo e vulnerabilidades profundas.

    Não se trata de negar fatores externos, mas de reconhecer que o núcleo da crise é doméstico: a desordem interna precede a intervenção externa.

    O papel dos recursos naturais: petróleo, política e sobrevivência estatal

    A dependência histórica do petróleo transforma qualquer crise política em crise econômica. Nos últimos anos houve flutuações importantes na produção e nas exportações: embora em 2025 a produção tenha mostrado sinais de recuperação relativa — com relatos de produção em torno de 0,9 – 1,1 milhão de barris por dia em vários meses — o volume ainda está muito aquém do potencial histórico do país e permanece exposto a choques, sanções e limitações técnicas.

    Esse quadro reduz a margem de manobra do país e torna políticas públicas e o financiamento social altamente dependentes de fatores externos.

    Eleições, legitimidade e repressão: o quadro político

    A disputa política venezuelana intensificou-se em 2024 com a eleição presidencial que resultou na recondução de Nicolás Maduro e na contestação ampla de observadores e organismos de direitos humanos. Relatórios internacionais (incluindo observadores eleitorais independentes) apontaram irregularidades e restrições ao processo democrático, enquanto organizações de direitos humanos documentaram prisões arbitrárias e repressão a protestos nas semanas e meses posteriores.

    Esses elementos minam a confiança na legitimidade das instituições eleitorais e reforçam a narrativa de erosão do espaço público e de criminalização do dissenso.

    Pressão externa e os Estados Unidos: prudência e risco

    Não há como dissociar a situação interna da Venezuela do contexto geopolítico hemisférico. A pressão dos Estados Unidos combina sanções econômicas, ações unilaterais e — mais recentemente — um aumento de presença militar e operações em regiões adjacentes, tudo isso em nome do combate ao narcotráfico e para ampliar pressão sobre o regime.

    Essas medidas aumentam a tensão regional e criam riscos de escalada que podem afetar a população civil e a estabilidade hemisférica.

    Nos meses mais recentes (final de 2025), relatos midiáticos documentaram operações navais/aéreas e ataques contra embarcações suspeitas no Caribe, além de advertências sobre espaço aéreo e movimentações militares que geraram fortes reações em Caracas.

    Há um dilema evidente: pressão externa pode ser necessária para coibir abusos, mas se mal calibrada tende a prejudicar a população e servir ao discurso interno do regime de “intervenção estrangeira”.

    A dimensão sul-americana: fragilidades compartilhadas e responsabilidade coletiva

    A crise da Venezuela é tanto um sintoma quanto um catalisador de tensões sul-americanas. Nossa região carrega heranças políticas semelhantes: centralização excessiva do poder, fragilidades institucionais, rupturas constitucionais e, sobretudo, a ausência ou destruição de corpos sociais intermediários que, em outras ordens políticas, funcionam como freios orgânicos ao poder estatal.

    Não por acaso, movimentos autoritários encontram terreno fértil num contexto onde as instituições e os espaços associativos foram enfraquecidos. A possibilidade de “contágio institucional” existe enquanto repetição de erros estruturais: concentração de poder, desprezo pelos limites sociais naturais e submissão da sociedade ao Estado.

    Ao mesmo tempo, a Venezuela influencia a região por meios concretos: ondas migratórias (os quase 7,9 milhões de venezuelanos fora do país), redes transnacionais e impactos econômicos — um fator que obriga países vizinhos, inclusive o Brasil, a adotar políticas coordenadas.

    O Brasil entre solidariedade e prudência

    O Brasil, como ator regional relevante, tem dupla responsabilidade: humanitária e estratégica.

    De um lado, há a obrigação moral de solidariedade ativa: acolher refugiados, oferecer cooperação técnica e participar de processos multilaterais que busquem reconstrução institucional e proteção de direitos. A experiência com fluxos migratórios recentes mostra que políticas de inclusão bem geridas geram benefícios sociais e econômicos a médio prazo.

    De outro lado, é necessária prudência estratégica: intervenções mal calibradas ou alinhamentos automáticos com interesses externos podem comprometer a soberania e a estabilidade interna. A política externa brasileira deve preservar autonomia, priorizar o bem comum regional e agir com critérios que protejam vidas sem sacrificar a ordem doméstica.

    Sanções, ética e bem-estar: calibrar a ação internacional

    Sanções são instrumentos com efeitos ambíguos: podem punir elites, mas muitas vezes recaem sobre populações inteiras. Por isso, as medidas externas precisam ser desenhadas com metas claras, mecanismos de mitigação humanitária e monitoramento contínuo para evitar danos colaterais.

    A comunidade internacional deve buscar uma resposta que combine condenação a abusos com mecanismos de proteção ao povo venezuelano — isto é, usar pressão de forma que favoreça a restauração do bem comum em vez de transformar a população em instrumento de disputas de poder.

    Reconstruir sociedades, não só trocar governos

    A crise venezuelana é mais do que um caso isolado: é uma advertência sobre o que acontece quando o poder se desprende de suas finalidades naturais, quando a sociedade é desarticulada e quando a soberania passa a servir primacialmente aos que a exercem. As consequências são econômicas, políticas, humanitárias e regionais.

    A saída exige tanto mudanças internas — reconstrução de instituições, fortalecimento de corpos sociais intermediários e restabelecimento de mecanismos de responsabilização política — quanto uma resposta regional pautada por solidariedade e prudência.

    O Brasil e a América do Sul devem atuar em prol do bem comum sul-americano: proteger vidas, restaurar a sociedade civil e reconstruir as condições para um Estado que cumpra, de fato, sua finalidade.

    Vitor Monteiro Raimondi
    Vice-presidente da Liga Acadêmica de Estudos Políticos (LAEP)

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