Bacia do Córrego Botafogo segue modelo usado no mundo
Obra anunciada em Goiânia tem lógica semelhante a soluções adotadas em São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Rotterdam, Tóquio e Copenhague para conter água da chuva e reduzir alagamentos.
A bacia do Córrego Botafogo, anunciada pela Prefeitura de Goiânia para a região da Vila Redenção, coloca a capital em uma rota já adotada por grandes centros urbanos: segurar parte da água das chuvas fortes antes que ela sobrecarregue córregos, galerias e avenidas. A obra terá investimento estimado em R$ 40 milhões e capacidade para armazenar cerca de 100 milhões de litros de água, segundo a gestão municipal.
Na prática, esse tipo de estrutura funciona como um reservatório temporário. Durante a chuva, a água entra na bacia. Depois, o sistema libera o volume de forma controlada. Com isso, a pressão sobre a drenagem diminui. Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, bacias de detenção são usadas para desacelerar o escoamento e reduzir picos de vazão, especialmente quando fazem parte de um conjunto maior de obras na bacia hidrográfica.
Modelo brasileiro
No Brasil, São Paulo é um dos exemplos mais conhecidos. A cidade usa os chamados “piscinões” para armazenar água da chuva em áreas críticas. De acordo com a Prefeitura de São Paulo, entre 2014 e 2024, a capacidade de reservação aumentou 46%, enquanto o número de alagamentos caiu 57% na comparação com o fim dos anos 1990, mesmo com índices de chuva semelhantes.
Curitiba também adotou uma lógica parecida, mas com outro desenho urbano. Na capital paranaense, parques alagáveis ajudam a conter e drenar a água das chuvas. Além do Parque Barigui, lagos dos parques São Lourenço, Bacacheri, Tingui e Atuba cumprem essa função, segundo a prefeitura local.
Em Belo Horizonte e Contagem, bacias de contenção também entraram na estratégia contra enchentes. Uma das estruturas foi construída para reduzir o risco de cheias na região da Avenida Tereza Cristina e evitar o transbordamento dos córregos Ferrugem e Ribeirão Arrudas.
Experiência internacional
Fora do Brasil, Rotterdam, na Holanda, virou referência ao transformar praças em áreas de armazenamento de água. A Water Square Benthemplein funciona como espaço público em dias secos e como reservatório durante chuvas fortes. O conceito une drenagem urbana, convivência e adaptação climática.
No Japão, a região metropolitana de Tóquio conta com um dos sistemas subterrâneos de drenagem mais conhecidos do mundo. A estrutura desvia água de grandes tempestades e ajuda a evitar alagamentos em áreas urbanas ao norte da capital japonesa.
Copenhague, na Dinamarca, também reformulou sua estratégia após uma chuva extrema em 2011. O plano da cidade prevê que parte da água seja direcionada para parques, campos esportivos e áreas abertas, onde os impactos são menores, até que o sistema de drenagem recupere capacidade.
Em Goiânia
No caso de Goiânia, a aposta da Prefeitura é reduzir o volume de água que chega rapidamente ao Complexo Viário Jamel Cecílio, à Marginal Botafogo e a outros pontos sensíveis da bacia. Segundo a própria gestão, a expectativa é diminuir em até 50% a descarga de água no complexo viário.

Especialistas em drenagem urbana costumam apontar que esse tipo de obra funciona melhor quando vem acompanhado de manutenção, limpeza de bocas de lobo, ampliação da microdrenagem e controle da ocupação do solo. Ou seja, a bacia não é uma solução mágica. No entanto, quando bem planejada, ela pode reduzir o pico da enxurrada e dar mais tempo para o sistema urbano escoar a água.
A obra no Córrego Botafogo, portanto, segue uma tendência já testada em cidades brasileiras e internacionais. O desafio agora será executar o projeto dentro do prazo, manter a estrutura funcionando e integrar a intervenção ao Plano Diretor de Drenagem Urbana da capital.