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    O assalto do Louvre e a fina película da civilização

    Em menos de sete minutos, a Europa viu ruir um de seus mais belos mitos: o da segurança como expressão última da civilização. O roubo das joias da coroa francesa, em pleno Louvre, o templo do patrimônio europeu, não foi apenas uma ação criminosa — é o retrato da crescente barbárie que acompanha a sociedade ocidental, um espelho quebrado diante do qual o Velho Continente se vê desnudado. Aquilo que outrora se apresentou ao mundo como o ápice da razão, da ordem e do progresso revelou, em um único golpe, a precariedade de seus próprios alicerces.

    Desde o Iluminismo, a Europa se reinventou: abandonou as caravelas, as carabinas e os canhões do colonialismo, mas preservou intacta a convicção de sua missão civilizatória. Já não precisava conquistar territórios, bastava conquistar consciências — impor seus modelos de razão, de progresso e de segurança como se fossem universais.

    O museu, enquanto instituição moderna, nasceu desse mesmo impulso: o de catalogar, classificar, guardar e, em última instância, dominar o tempo e a memória. O Louvre, talvez mais do que qualquer outro, simboliza essa ambição de permanência e controle. Quando esse espaço é violado em plena luz do dia, o que se abala não é apenas um sistema de segurança, mas o próprio ideal de civilização que ali se exibe.

    A segurança pública, entendida como a domesticação do imprevisível, foi sempre um dos signos da modernidade europeia. Hegel via na polícia e no Estado a expressão do Espírito que se realiza no mundo; Hobbes fundou o pacto social na necessidade de se proteger do caos. Ainda assim, o que o episódio do Louvre revela é o retorno do imprevisível ao coração da ordem. O Leviatã, que prometia vigiar e conter a desmedida humana, parece adormecido. E a cidade que ensinou o mundo a temer a barbárie experimenta, por um instante, o gosto da vulnerabilidade.

    Há nesse acontecimento uma ironia histórica difícil de ignorar: boa parte das riquezas hoje guardadas naquele museu foi, em algum momento, arrancada de outros povos, em outros continentes, sob o argumento da missão civilizadora. O que um dia foi tomado em nome da razão e da cultura, agora é tomado dentro de seus próprios muros. O ouro africano, as esculturas orientais, os tesouros americanos repousavam em paz sob a guarda de quem se julgava senhor do mundo. Talvez a História apenas devolva o gesto, num jogo de simetria que não deixa de ser desconcertante.

    É claro que toda forma de violência deve ser repudiada. Nenhum ato de agressão ou violação, seja contra uma vida, uma instituição ou uma obra de arte, pode ser justificado sob o pretexto de crítica histórica. Toda cultura, afinal, carrega em si suas próprias contradições, suas mazelas e feridas. O problema da Europa, contudo, é ter se concebido, ao longo dos séculos, não como uma civilização entre outras, mas como o modelo supremo da civilização. Ao pretender-se universal, ela transformou sua história em medida para todas as demais, esquecendo-se de que também é feita de ruínas, guerras e barbáries.

    O roubo do Louvre não é, portanto, uma afronta isolada, mas uma consequência natural de séculos de conduta imperial — um eco tardio de uma arrogância que, em nome da razão, acreditou poder domesticar o mundo.

    O roubo do Louvre é, antes de tudo, um lembrete de que a civilização não é um estado conquistado, mas um equilíbrio delicado, sempre à beira do colapso. A segurança, a ordem e o progresso, que por tanto tempo serviram de emblemas para a Europa, mostram-se frágeis, quase ilusórios, meras formas que tentam conter o caos que as habita.

    Como intuía Sérgio Buarque de Holanda, a civilização é apenas uma fina película sobre o desamparo humano — um verniz que se rompe ao menor abalo. Entre o esplendor das joias e o silêncio das vitrines quebradas, o que se escuta é o eco incômodo de uma pergunta antiga: o que resta, afinal, da civilização, quando sua própria ideia de segurança se desfaz em sete minutos?

    Matheus Quintiliano, Presidente da Liga Acadêmica de Estudos Políticos, LAEP

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