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    O que o campo espera das novas gestões

    Quando esta coluna for publicada, no dia primeiro de outubro de 2026, estaremos há dois dias das eleições para presidente, governadores e para o parlamento brasileiro. Acredito haver espaço para algumas reflexões sobre o que é o campo e seus principais protagonistas, os agricultores.

    As notícias que circulam são ufanistas e, contraditoriamente, derrotistas. O ufanismo está no fato de o Brasil ter alcançado o posto número um de protagonista no mercado internacional de alimentos. Ultrapassou os Estados Unidos e já não é visto como um caso de ajuda humanitária, como era a percepção sobre o país há cinco décadas. Naquele momento havia um deslocamento acelerado de pessoas do campo para as cidades, o fim de um falso milagre econômico que insistia em encobrir o fracasso de uma ruptura democrática ocorrida em 1964, um país em transe com a conquista do tricampeonato mundial com um time que quase todos que gostam de futebol sabem de cor, mas que, por trás do país do “ame-o ou deixe-o”, havia fome. Muita fome e desigualdade.

    Uma região Nordeste em que a seca se confundia com a miséria e a fome. Com a criança brincando com ossos, com a carcaça da última vaquinha, a água barrenta, as procissões, as frentes de emergência e os discursos messiânicos. O registro mais simbólico de tudo isto é uma foto em que o Presidente Collor de Melo, em uma visita a Serra Talhada, com os pulsos em riste e a elegância de um jovem ator, discursa para uma horda de famintos à espera de uma cesta básica para saciar a fome daqueles que ficaram em casa. Rostos amargurados, enrugados, chapéus de palha ou de couro gastos pelo tempo, pelo sol e pelo suor.

    O senso de derrota se espalha à medida que as previsões da Companhia Nacional de Abastecimento – CONAB ou do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos preveem mais uma safra recorde e que aproximadamente 370 milhões de toneladas de grãos serão produzidas no ano agrícola de 2026-2027. Ao mesmo tempo, o número de falências no campo cresceu nos últimos três anos, bem como o de recuperações judiciais, destacando-se a região Centro-Oeste. Para o leitor da primeira narrativa, é certa a sensação de que o país acertou em apostar na agricultura e na pecuária, especialmente quando as mesmas fontes deixam claro que o país é capaz de alimentar um bilhão de irmãos. Caso se inverta a análise, o que se vê é um país em completa desordem produtiva, em que milhares de agricultores espoliados pelo sistema têm suas fazendas confiscadas pelos bancos públicos.

    Já para quem tenta compreender o dia a dia de um agricultor, nota que entre uma e outra versão há um abismo a ser desvendado. Do ponto de vista estratégico, o país se beneficiou com a decisão de seu mais importante concorrente, os Estados Unidos, quando decidiu abrir uma guerra geopolítica declarada com a China, elevar os impostos de importação e, em resposta, ver o mercado de commodities agrícolas ser substituído por outros produtores, entre esses o Brasil. A demanda por soja, farelo de soja, milho, carne bovina, frango, sucos, derivados de madeira e açúcar cresceu, e os preços também cresceram juntos. Os custos de produção subiram, mas em nenhum modo que superassem a demanda e o valor das mercadorias nas bolsas.

    Para alguns críticos que desconfiam do catastrofismo, a pergunta que fica é como, em um momento virtuoso da economia agrícola mundial, e do Brasil, em particular, se justificam tantas quebras. Aprofundando-se o estudo do caso, o que se vê são grandes corporações que não tiveram suas safras confiscadas ou perdidas em armazéns por falta de compradores, tentando convencer o sistema econômico de que não podem honrar os empréstimos e que, afogadas na inadimplência, o que resta é clamar por perdão de dívida, renegociações sem fim ou falsas falências.

    Empresas, cooperativas ou aglomerados cujos gestores e conselhos concordaram em exportar seus ganhos, apostar na compra de moedas fictícias, as bitcoins, em um dólar americano a cada dia mais frágil, já que a armadilha da emissão infinita da moeda pelo Tesouro daquele país não é mais aceita, ou decisões equivocadas na condução dos negócios, como é o caso do setor sucroenergético da cana-de-açúcar.

    Equívocos que duram décadas.

    Apesar do catastrofismo de alguns, o cenário é positivo. Purgando-se os devedores que insistem em não honrar com o crédito, aqueles que não cumprem com a legislação ambiental, os que veem a agricultura e a pecuária como negócio, sobram milhões de agricultores que têm feito ano após ano o dever de casa. Aproveitando as políticas públicas voltadas para o campo, consolidando seus empreendimentos e produzindo, independentemente do tamanho ou da região. Sejam aqueles que visam o Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras – Moderfrota ou os que são clientes do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – Pronaf.

    Cabe ao governo encarar a agricultura como um segmento indispensável e estratégico da economia nacional e perceber que a pequena e média produção, aquela que representa o segmento conhecido como Agricultura Familiar, deve ser objeto de uma política propositiva, desenvolvimentista, modernizadora, ancorada em ativos científicos, de forma que a produção de bens cresça e que o país se consolide ainda mais como o grande celeiro do mundo.

    Para que isto possa ocorrer, será necessário que os avanços de pesquisa sejam ainda mais consistentes e, neste sentido, a recuperação das instituições estaduais de pesquisa será fundamental. O aparato universitário e a Embrapa sozinhos, mesmo contando com quarenta e seis unidades, não darão conta desta tarefa. O desmonte da rede de Organizações Estaduais de Pesquisa, as OEPAS, e do equivalente à extensão, as Ematers, foi um erro crasso por parte dos gestores estaduais em quase todos os estados. A defasagem salarial, a não contratação de jovens pesquisadores, extensionistas e colaboradores de apoio, com duas ou três exceções, o não investimento na infraestrutura física e a defasagem do aparato de informação em tempos de Inteligência Artificial é tamanha que a maioria dessas instituições deve ser remontada.

    Para se ter uma ideia do tamanho do descalabro, há duas semanas foi a público que uma instituição estadual do Sudeste contava no seu quadro de servidores com quatrocentos bolsistas fantasmas.

    A esperança sempre estará à espera

    Pernambuco e o Nordeste que se cuidem. As ameaças de um novo ciclo de secas são lembradas a cada dia e, com estas, os diagnósticos mais sombrios, seja por parte daqueles que temem e conhecem a ação devastadora das secas sobre a população, seja por parte dos aproveitadores que sonham com o desastre para venderem soluções viciadas e ineficazes. Ainda bem que o investimento realizado na malha hídrica da região é de tal forma consistente que, mesmo em alguns anos seguidos de secas, a exemplo do Super El Niño tão comentado, não causará o dano de secas anteriores, ao menos no que se refere ao abastecimento de cidades e comunidades e dos rebanhos. Hoje o Nordeste é uma das regiões semiáridas do Sul global mais qualificadas em responder aos desafios, entretanto, contar com uma estrutura institucional capaz de gerir momentos críticos e desastres naturais é algo que não se questiona.

     

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