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    Uma crise contratada nas urnas

    As urnas de 4 de outubro inverteram uma ordem que os principais institutos de pesquisa desenhavam: o senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente Lula (PT), uma diferença de 2,2 milhões de votos, numa eleição que registrou ainda a maior abstenção desde 1998, de 21,08%. O segundo turno, no dia 25, segue aberto, mas o resultado já autoriza duas leituras que vão além da aritmética das próximas semanas.

    A primeira é que o PT leu mal o país que o reconduziu ao poder em 2022 e desperdiçou o capital político da frente ampla apregoada por Lula naquela ocasião. A segunda é que, se vencer, Flávio Bolsonaro inaugurará o que chamo aqui de crise contratada: um governo cujos conflitos com algumas instituições – principalmente o Supremo Tribunal Federal – e com o pacto social de 1988 não são riscos de percurso, mas cláusulas do programa já em marcha.

    Convém olhar o resultado em uma perspectiva de fácil compreensão. A eleição de 2026 atua como uma espécie de “tira-teima”, uma “melhor de três”. É a terceira partida de um jogo iniciado em 2018. Na primeira, com Lula ainda preso em Curitiba, Jair Bolsonaro derrotou Fernando Haddad. Na segunda, Lula devolveu a derrota por margem estreita e Jair terminou condenado por tentativa de golpe de Estado. A terceira começa com o filho do algoz do PT na dianteira e com a promessa explícita de reverter o placar anterior.

    A ciência política tem nome para esse padrão: polarização afetiva. Ela se instala quando a rejeição ao adversário pesa mais do que a adesão às próprias ideias, e cada eleição deixa de ser alternância para virar acerto de contas. A lógica do “nós contra eles”, que o PT cultiva ao menos desde a vitória apertada de Dilma Rousseff sobre Aécio Neves, em 2014, é a versão doméstica do fenômeno. Em 2026 ela cobra o preço de ter sido alimentada cotidianamente pelo próprio Lula, que pode voltar a perder uma eleição direta, algo que não lhe acontecia desde 1998.

    O primeiro erro é de diagnóstico. Parte da esquerda insiste em tratar os 56 milhões de eleitores de Flávio como fascistas, “gado” ou gente indiferente à democracia. É uma leitura equivocada e que já devia ter sido abandonada desde a derrota de 2018. Aqui parece ser necessário esclarecer o óbvio: nem todos os que deram a vitória a Lula em 2022 eram progressistas ou “petistas”, como se habituou a chamar qualquer cidadão que parecesse não concordar com as condutas adotadas pelo governo anterior. Àquela época muitos eleitores votaram contra Jair, numa coalizão negativa que não se converte automaticamente em apoio a um governo de esquerda. Todos nós sabemos que o Brasil é historicamente conservador, e quem confunde conservadorismo com autoritarismo abre mão de disputar justamente o eleitor que decide eleições, inclusive a do dia 25.

    O segundo erro é de economia política. A literatura sobre voto retrospectivo é clara: o eleitor julga o governo pelo que sente no bolso, não pelos indicadores agregados. A renda pode ter melhorado; o desemprego pode ter caído; mas a sensação de bem-estar, essa parece não ter avançado. Para a família endividada, a prateleira do supermercado fala mais alto que a média salarial, e foi para lá que Flávio levou suas inserções de TV. Mais jovem, austero e com uma retórica infinitamente melhor que a do pai, encontrou ali o contraponto a um Lula que parecia cansado e com pouca disposição de convencer o eleitor nesta que é a sua sétima disputa presidencial.

    O paradoxo é que o governo tinha o que mostrar. A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, em vigor desde janeiro, alcança cerca de 15 milhões de pessoas. Somam-se a lei de igualdade salarial entre homens e mulheres, a reforma tributária, o Pé-de-Meia, o Gás do Povo e o Desenrola. Entregas concretas que ainda hoje parecem não ter virado narrativa.

    A campanha agravou o quadro. Lula entrou na disputa como quem se via predestinado: o único presidente eleito três vezes pelo voto direto, de volta ao Planalto depois da prisão e da derrocada petista de 2018. “Eu estava convencido de que ganharia a eleição no primeiro turno”, admitiu após a apuração em que ficou em segundo lugar, num gesto que colocou a autocrítica e a humildade a léguas de distância. A propaganda refletiu essa autoimagem: muito legado, muita biografia, pouco futuro e pouco do cotidiano do eleitor. No ambiente digital, ficou aquém dos novos tempos, como a própria cúpula petista passou a reconhecer.

    O erro mais caro, porém, é anterior à campanha. Lula voltou ao poder sustentado por uma frente ampla de políticos, juristas, empresários e eleitores de centro que viram nele o fiador possível de uma democracia ameaçada. O mote era união e reconstrução. Que acenos o governo fez a essa frente em quatro anos?

    Vale a pena lembrar como o lulismo nasceu vencedor. Depois de três derrotas seguidas, em 1989, 1994 e 1998, o PT só chegou ao Planalto em 2002 quando parou de falar apenas aos seus. A chapa daquele ano trazia como vice o empresário José Alencar, pelo PL, a mesma sigla que hoje abriga os Bolsonaro, num gesto deliberado de diálogo com o setor produtivo, com o mercado e consequentemente com o eleitor conservador que, até àquela altura, não ousava votar num partido de esquerda. Era preciso moderar o tom, e foi justamente essa abertura ao centro, e não a pureza ideológica, que converteu o PT em partido de governo.

    A fórmula se repetiu em 2022, por outros meios. A coligação partidária era estreita, mas a candidatura soube atrair quem nunca caminhara com o petismo: a declaração de voto de Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, o apoio de economistas do Plano Real como Pérsio Arida, Edmar Bacha e André Lara Resende, a adesão de Simone Tebet no segundo turno, a escolha de Geraldo Alckmin como vice. Somava-se a isso um capital de memória, já que o eleitor premiava menos o Lula de 2022 do que o de 2006, e foi justamente esse recall um dos principais elementos capazes de trazê-lo de volta. A leitura, feita por eleitores moderados e majoritariamente conservadores, era de que ele era o fiador possível da democracia diante dos excessos de Jair Bolsonaro. Vieram, também por isso, adesões espontâneas nos dois turnos.

    Esse movimento não se repetiu agora. Em quatro anos de governo, mesmo com o Centrão na base e vitórias legislativas relevantes, o PT não ampliou seu arco de alianças nem se reconciliou com a classe média e com o eleitor independente que o havia socorrido em pelo menos duas eleições. A oposição, é verdade, era de outra natureza, uma vez que o bolsonarismo não joga como jogavam PSDB e PFL nos anos 2000, mas a impressão que ficou, alimentada pelos sinais que menciono a seguir, foi a de um presidente mais interessado em ajustar contas com quem o perseguiu na prisão de Curitiba do que em governar para um país fraturado duplamente pela polarização de 2018 e 2022, e isso parece ter sido o bastante para afastá-lo do centro que o elegeu.

    As indicações ao Supremo Tribunal Federal são o termômetro mais nítido e mais vivo na cabeça do eleitor que hoje rejeita Lula. Primeiro, o advogado pessoal do presidente, Cristiano Zanin. Depois, um aliado histórico, Flávio Dino, juiz federal respeitado e ex-presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil, mas também ministro da Justiça do próprio governo. Por fim, Jorge Messias, advogado-geral da União e homem de confiança do Planalto, rejeitado pelo Senado enquanto a sociedade civil pedia uma jurista negra e o próprio mundo político acenava com Rodrigo Pacheco, nome capaz de significar um sinal ao distensionamento da relação com o centro. Em todos esses casos Lula preferiu premiar os seus.

    O recado captado por boa parte da sociedade foi o de um governo mais revanchista do que pacificador: ganhei, o outro lado perdeu, agora recompenso os meus. Frente ampla não é plateia; é sócia. E sócio ignorado costuma mudar de lado.

    Se Flávio vencer, o país não entrará em crise por acidente. Entrará por contrato, e as cláusulas estão escritas em três dimensões.

    A primeira é o Supremo. Flávio pediu publicamente o impeachment de Alexandre de Moraes, acusou o Senado de “anestesia” diante dos pedidos e passou a tratar Dino como parte de uma “tropa de choque” de Lula no tribunal. Desde julho, pede votos para candidatos ao Senado comprometidos com o afastamento de ministros. O freio é aritmético. A condenação de um ministro exige 54 votos, e o PL, mesmo com 28 senadores, a maior bancada de um partido no início de uma legislatura desde 1988, precisaria de outros 26. Mas o processo, por si só, já seria a crise: o Senado jamais levou um ministro do Supremo a julgamento e talvez ainda não o faça, já que a história do Brasil, pelo menos até aqui, é feita mais de conciliação do que de conflitos.

    Logo após a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, os acenos do outro lado da Praça dos Três Poderes começaram: semiaberto para “Débora do batom”, arquivamento da investigação contra o senador Marcos do Val (Avante/ES) e blogueiros bolsonaristas, arquivamento de denúncias direcionadas ao vice na chapa do PL e até acenos de revisão de pena para o pai. Nada é por acaso: afinal, o impeachment não é a única forma de se deixar uma cadeira vazia no Supremo; há uma investigação em curso acerca das relações de membros do STF com o banqueiro Daniel Vorcaro, e, no mundo político, a renúncia é sempre uma opção mais segura à caça às bruxas.

    A segunda é o tesouraço, a bandeira econômica da campanha. O plano prevê extinguir ao menos dez ministérios, e uma PEC pode chegar ao Congresso antes mesmo da posse. A reforma administrativa já tem trilho: a PEC 32/2020, herdada do governo do pai, e a PEC 38/2025, nascida de um grupo de trabalho e tendo o deputado Zé Trovão (PL/SC) como primeiro signatário. Universidades públicas e carreiras do funcionalismo tendem a responder com paralisações e mobilizações. Nas estatais, a campanha descarta vender a Petrobras e preserva a Caixa, mas deve retomar o Programa Nacional de Desestatização. Os Correios, que Flávio exibe como símbolo de má gestão petista, são candidatos naturais a caminhar na trilha aberta pela Eletrobras no governo de Jair.

    A terceira é a revisão do pacto social de 1988. O próprio candidato promete reformas na Constituição para “redemocratizar” o país. A PEC 12/2026, do senador Rogério Marinho (PL/RN), coordenador da campanha, assinada pelo próprio Flávio, permite ao trabalhador trocar a CLT por um regime pago por hora, e o deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL/SP) colhe assinaturas para uma PEC que extingue a Justiça do Trabalho. Com cortes de toda ordem, é difícil imaginar SUS e SUAS intocados. E há a agenda institucional: anistia ampla, geral e irrestrita aos condenados do 8 de Janeiro, Jair incluído, com uma forcinha de um Poder Judiciário em busca de conciliação, ou indulto presidencial, se faltarem votos; e o fim da reeleição já no próprio mandato, deixando ao Congresso decidir se ele passa de quatro para cinco anos – ou quem sabe mais. Mudar a duração do mandato de quem já está no cargo é alterar as regras do jogo com a partida em andamento.

    Haverá greve, nota de reitor, protesto de servidor e editorial indignado. Mas barulho não é sinônimo de derrota. O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada saída das urnas desde 1986, e terá 28 senadores; PP, União Brasil, Republicanos, Podemos e MDB já anunciaram apoio a Flávio no segundo turno. Os quóruns de emenda constitucional, 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos, ainda passam pelo Centrão. Só que o Centrão, como mostram três décadas de presidencialismo de coalizão, gravita em torno de quem vence, sobretudo na lua de mel de um governo com agenda clara e cargos a distribuir.

    A resistência tende a negociar o ritmo, não a direção. Com exceção do impeachment de ministros do STF, cujo quórum e custo institucional são de outra ordem, mas ainda assim com ventos bastante favoráveis, a agenda de um eventual governo Flávio deve passar com pouca ou nenhuma desidratação.

    Daí o título. Os embates com as instituições, com quem faz a máquina pública funcionar e com a própria Constituição de 1988 não seriam acidentes de percurso. Estão no programa, assinados e com votos para passar. E são a continuidade lógica das três partidas: a primeira começou com um lado preso; a segunda terminou com o outro condenado; a terceira pode fechar o ciclo libertando quem foi condenado e reescrevendo as regras do jogo, do tempo de mandato às competências do Supremo. Cada rodada não corrigiu a anterior. Radicalizou a aposta.

    Ao PT fica a lição de que quem governa só para os seus entrega ao adversário o eleitor que o elegeu. Ao país, resta o dia 25. O contrato está redigido; falta a assinatura. Enquanto as eleições forem tratadas como acerto de contas, e não como alternância, o vencedor herdará menos um mandato do que a próxima partida. E a conta, como sempre, chegará com juros à população.

     

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