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    Com nova usina em Goiás, Inpasa enfrenta questionamentos sobre sustentabilidade e uso de lenha no Maranhão

    A Inpasa, maior produtora de etanol de milho da América Latina, anunciou a construção de uma usina bilionária em Rio Verde, no sudoeste de Goiás.
    É a nona unidade da companhia no país e a primeira em território goiano.
    A obra, orçada em R$ 2,4 bilhões, deve gerar 2.700 empregos durante a construção e 420 postos fixos quando entrar em operação.

    Nos bastidores do entusiasmo econômico, cresce um alerta: o etanol de milho da Inpasa consome lenha em larga escala — e não há florestas suficientes sendo plantadas para repor o que será queimado.


    O combustível que não se explica

    Cada litro de etanol de milho exige energia térmica. E essa energia vem da queima de cavaco de lenha nas caldeiras industriais que operam dia e noite.
    Engenheiros do setor calculam que uma usina média consome centenas de toneladas de biomassa por dia — o equivalente à derrubada de centenas de árvores diariamente.Cavacos de Madeira: controle de qualidade Seta

    De acordo com estimativas técnicas obtidas pela reportagem, uma unidade com capacidade para 2 milhões de toneladas de milho por ano, como a projetada pela Inpasa em Rio Verde, deverá consumir aproximadamente 1 milhão de toneladas de cavaco de lenha por ano.
    Isso equivale a 3 mil toneladas de biomassa por dia, ou cerca de 125 toneladas por hora, considerando a operação média de 330 dias por ano.

    Especialistas chamam isso de “regra de ouro” do setor: cada tonelada de milho processada demanda, em média, meia tonelada de biomassa para gerar o vapor que alimenta os sistemas de secagem e destilação.
    Com esse volume, a nova usina se posicionará entre as maiores consumidoras de cavaco do Centro-Oeste, entrando diretamente na disputa por matéria-prima com gigantes industriais já instaladas na região.


    O impacto florestal

    A empresa não mantém grandes áreas de reflorestamento e tampouco apresentou plano público de reposição florestal.

    “O uso de cavaco na produção de etanol é altíssimo. E o setor inteiro ignora a reposição. Estão tirando lenha do Cerrado e chamando de energia limpa”, afirma um engenheiro florestal ouvido pela reportagem sob anonimato.

    Em Mato Grosso, o Ministério Público abriu uma investigação sobre o uso de lenha oriunda de desmatamento ilegal em usinas de etanol de milho, segundo reportagem da Reuters.
    A promotora de Justiça Ana Luiza Peterlini, responsável pelo inquérito, afirmou que a prática pode contrariar a própria lógica de descarbonização que o setor defende.
    O objetivo da apuração é verificar se as usinas estariam utilizando lenha nativa nas caldeiras e cobrar do governo estadual explicações sobre as normas e processos de fiscalização relacionados ao uso de biomassa.


    A lição do Maranhão

    O exemplo vem do Maranhão. Em Balsas, onde a Inpasa inaugurou uma planta neste ano, o município se tornou o segundo que mais desmata no Brasil, segundo dados do MapBiomas.
    A empresa nega qualquer envolvimento com o desmatamento e afirma seguir “as melhores práticas socioambientais”, mas ambientalistas e pesquisadores veem relação direta entre a chegada da indústria e o aumento da pressão sobre o Cerrado.

    A nova usina maranhense tem capacidade para processar 2 milhões de toneladas de milho e sorgo por ano, produzindo 925 milhões de litros de etanol.
    A proporção de lenha necessária para alimentar suas caldeiras é considerada alta.
    Quando não há eucalipto suficiente, parte das indústrias recorre à lenha nativa — extraída de áreas vulneráveis.

    Nas comunidades rurais próximas, o contraste é evidente.
    Enquanto a indústria de biocombustíveis movimenta bilhões, famílias ainda convivem com a falta de água potável.

    “A gente pega água no jumento pra beber, cozinhar e tudo. Só temos água boa quando chove”, conta Maria de Lourdes Macedo, 61 anos, moradora de São Félix de Balsas.


    A escala do consumo

    De acordo com estimativas da Arefloresta, associação que reúne produtores de florestas plantadas, seriam necessários cerca de 30 mil hectares de eucalipto para suprir a demanda de lenha projetada para o ciclo 2025/26, considerando a moagem de 13,5 milhões de toneladas de milho destinadas à produção de etanol apenas em Mato Grosso.
    A projeção é teórica, mas serve para dimensionar a escala do consumo: se toda a biomassa que alimenta as caldeiras viesse de florestas plantadas, seria preciso cultivar uma área equivalente a 300 quilômetros quadrados de eucalipto.Florestas plantadas no Brasil ocuparam 9,5 milhões de hectares em 2021 | Agência Brasil
    Na prática, a maioria das usinas depende de fornecedores externos — e parte da biomassa pode vir de fontes nativas, aumentando a pressão sobre o Cerrado e colocando em xeque o discurso de sustentabilidade do setor.


    O discurso e o fogo

    A Inpasa se apresenta como símbolo da transição energética e afirma já ter emitido 1,3 milhão de créditos de descarbonização pelo programa RenovaBio.
    Nos vídeos institucionais, tudo é verde, tecnológico e sustentável. Mas especialistas afirmam que a ausência de florestas energéticas próprias transforma o modelo em um ciclo de queima disfarçado de sustentabilidade.

    “Se a empresa não começar a plantar eucalipto em larga escala, o etanol de milho vai virar o mico verde do agronegócio”, diz um pesquisador do setor energético.

    Procurado pela reportagem, o Grupo Inpasa informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que “ainda não há operação em Rio Verde” e que, por enquanto, “foram apenas anunciadas as obras”.
    A empresa não respondeu às perguntas sobre o tipo de biomassa que será utilizada, se possui áreas próprias de reflorestamento ou se há planos de manejo florestal e parcerias com produtores.


    A disputa pela lenha

    Além do desafio ambiental, a Inpasa enfrentará concorrência direta pelo consumo de cavaco de lenha.
    Na região de Rio Verde e Jataí, grandes grupos agroindustriais como Comigo, BRF, Cargill e Louis Dreyfus também utilizam biomassa como fonte energética em seus processos industriais.
    Essas empresas já disputam fornecedores e áreas de reflorestamento, o que deve intensificar a pressão sobre o mercado de lenha e sobre o próprio Cerrado, caso não haja ampliação efetiva de florestas plantadas.


    As respostas oficiais

    A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad) informou, em nota, que Rio Verde é um dos municípios aos quais o Conselho Estadual do Meio Ambiente (CEMAm) descentralizou competências administrativas na área ambiental, conforme Resolução nº 224, de 31 de julho de 2023.
    A pasta explicou que, dependendo da atividade, a prefeitura é a responsável pela regularização ambiental, e que a Superintendência de Licenciamento emitiu uma delegação permitindo ao município conduzir todo o processo de regularização da atividade declarada pela Inpasa.
    O convênio de delegação de competência foi lavrado em 20 de agosto de 2025 e publicado no Diário Oficial do Estado dois dias depois.
    Por fim, a Semad esclareceu que não há alertas para eventuais irregularidades ambientais na categoria de fabricação de álcool.

    A assessoria de comunicação da Prefeitura de Rio Verde confirmou que o empreendimento possui Licença Prévia e de Instalação emitida pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente do município.

    Apesar dos esclarecimentos oficiais, a Inpasa ainda não apresentou um plano de trabalho que detalhe a origem da biomassa que será utilizada na nova unidade de Goiás.
    A ausência de informações sobre plantio próprio, compra ou arrendamento de florestas energéticas levanta dúvidas sobre como a empresa pretende sustentar a operação sem ampliar a pressão sobre o Cerrado.

    Por trás dos números bilionários e do discurso limpo, o que move as caldeiras da Inpasa é o combustível mais antigo do Brasil: a lenha do Cerrado, que segue queimando em silêncio enquanto o país tenta se convencer de que o futuro é verde.

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