‘Master paraguaio’: BC assume banco com 3 milhões de clientes
Ueno Bank tem operações suspensas após regulador identificar insuficiência de capital e empréstimos ligados ao grupo controlador.
O Banco Central do Paraguai (BCP) assumiu o controle do Ueno Bank nesta terça-feira (3), após identificar uma grave insuficiência de capital na instituição financeira. A intervenção no Ueno Bank, que possui cerca de 3 milhões de clientes, provocou a suspensão das operações com contas e cartões. Além disso, o banco administra aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, segundo informações da Reuters.
A decisão, aprovada na segunda-feira (2), deu início ao procedimento de resolução da instituição. Segundo o regulador, ajustes contábeis revelaram que o índice de solvência caiu para menos da metade do mínimo exigido pela legislação. O indicador mede a relação entre o capital disponível e os riscos assumidos pelo banco.
A crise levou parte da imprensa brasileira a comparar o Ueno ao Banco Master. A expressão “Master paraguaio” faz referência a características semelhantes apontadas nos dois casos, como operações financeiras sob investigação e a presença de recursos previdenciários. Entretanto, a comparação não significa que as instituições tenham cometido as mesmas irregularidades.
Empréstimos suspeitos
Segundo o Banco Central paraguaio, a fiscalização começou em junho, quando técnicos identificaram empréstimos concedidos a empresas ligadas ao grupo controlador do Ueno.
As relações entre as companhias, porém, não apareciam diretamente na documentação apresentada. Por isso, os fiscais aprofundaram a análise das operações e buscaram rastrear o destino dos recursos.
Além disso, o regulador identificou falhas na documentação dos empréstimos e na contabilização de serviços de informática. O órgão informou que encaminhará às autoridades competentes eventuais indícios de condutas fraudulentas.
A intervenção no Ueno Bank ocorreu após essas verificações apontarem problemas na situação patrimonial e nos registros contábeis da instituição. Entretanto, a apuração de possíveis fraudes ainda depende da atuação das autoridades responsáveis.
US$ 850 milhões públicos
O Ueno Bank tem como controlador majoritário o Grupo Vázquez. Segundo a Reuters, a instituição administra aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos paraguaios.
Entre os valores estão aplicações do Instituto de Previsión Social (IPS), responsável pela previdência e pela assistência à saúde no Paraguai.
Dessa forma, a crise também envolve recursos vinculados a serviços públicos e à proteção social. A recuperação dos investimentos dependerá dos procedimentos adotados durante a resolução da instituição.
Segundo a Associated Press, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, manteve negócios com o Grupo Vázquez até março de 2025. Entretanto, o Ueno afirma que o chefe de Estado nunca foi acionista nem investidor do banco.
Presidente do BC renuncia
A crise também provocou mudanças no comando do Banco Central paraguaio. Carlos Carvallo, presidente da instituição reguladora, anunciou que assinou sua renúncia.
Antes de assumir o comando do BCP, Carvallo presidiu o próprio Ueno Bank. Apesar da decisão de deixar o cargo, ele informou que permanecerá provisoriamente na função para acompanhar o procedimento de resolução.
A saída ocorre enquanto o regulador conduz o levantamento da situação financeira do banco e avalia os próximos encaminhamentos.
Contas bloqueadas
Com a suspensão das operações, aproximadamente 3 milhões de clientes ficaram sem acesso regular aos serviços de contas e cartões, conforme as informações divulgadas.
Entretanto, o Paraguai possui um Fundo de Garantia de Depósitos que protege determinados valores mantidos em instituições financeiras.
No caso do Ueno, a cobertura alcança até 228,3 milhões de guaranis por depositante e instituição, limite equivalente a 75 salários mínimos mensais no país. A proteção contempla pessoas físicas e jurídicas.
Além disso, o cálculo considera o valor total que cada depositante possui no banco, e não um limite separado para cada conta.
Para os saldos superiores ao teto, o Banco Central informou que buscará mecanismos de proteção. No entanto, o regulador não anunciou garantia de devolução integral dos valores que ultrapassam a cobertura.
Prazo de 15 dias
A intervenção no Ueno Bank também envolve a identificação dos ativos, das obrigações e da capacidade de recuperação dos recursos da instituição.
Segundo o BCP, o problema está concentrado no banco e não representa uma crise generalizada do sistema financeiro paraguaio.
O regulador informou que dispõe de até 15 dias para concluir o levantamento dos ativos e das obrigações do Ueno Bank.