Quem é o Delegado Da Cunha, deputado demitido por Tarcísio da Polícia Civil de São Paulo
Deputado federal ganhou projeção nacional com vídeos de operações policiais; Corregedoria havia recomendado sua saída da corporação em 2022
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), demitiu nesta quinta-feira (3) o deputado federal Carlos Alberto da Cunha, conhecido como Delegado Da Cunha, da Polícia Civil paulista.
A decisão encerra uma trajetória que ajudou a transformar o policial em uma das figuras mais conhecidas da segurança pública nas redes sociais.
Posteriormente, essa popularidade também impulsionou sua entrada na política.
Da Cunha respondia a um processo administrativo relacionado à sua atuação como delegado.
A Polícia Civil recomendou a demissão em 2022. No entanto, a decisão final permaneceu pendente por quase quatro anos.
A punição aplicada foi de demissão a bem do serviço público.
O ato saiu no Diário Oficial do Estado de São Paulo.
Atualmente filiado ao União Brasil, Da Cunha exerce mandato de deputado federal e tenta a reeleição em 2026.
Por causa do mandato parlamentar, ele já estava afastado das atividades na Polícia Civil e não recebia salário da corporação.
Caso começou em 2020
O processo que resultou na demissão teve origem em um episódio ocorrido em julho de 2020, na Zona Leste de São Paulo.
Segundo a investigação da Corregedoria da Polícia Civil, uma equipe já havia localizado um cativeiro, libertado uma vítima de sequestro e prendido um suspeito.
Da Cunha teria chegado posteriormente ao local.
Ainda conforme a apuração, o delegado teria determinado que a ação fosse repetida diante das câmeras.
A vítima e o homem preso teriam retornado ao imóvel para a gravação.
A Corregedoria entendeu que a cena buscava apresentar Da Cunha aos seguidores como responsável pela ação policial.
As imagens posteriormente apareceram nas redes sociais e também chegaram à televisão.
Da Cunha admitiu na época ter realizado uma reprodução da ocorrência.
Entretanto, sustentou que se tratava de uma reconstituição.
Os investigadores contestaram essa justificativa.
Segundo a apuração, uma reconstituição policial segue procedimentos próprios e normalmente ocorre durante a investigação.
Corregedoria recomendou demissão
O caso seguiu para um Processo Administrativo Disciplinar, o PAD.
Após analisar os fatos, a Corregedoria concluiu que houve falta disciplinar grave.
Depois disso, o Conselho da Polícia Civil recomendou a demissão do delegado.
A recomendação ocorreu em 2022.
Porém, delegados da Polícia Civil paulista só poderiam receber essa punição por decisão do governador, segundo a legislação vigente à época.
O processo chegou à Assessoria Jurídica do Governo no final da gestão de Rodrigo Garcia.
O ex-governador afirmou que não chegou a analisar o pedido de demissão.
Segundo ele, o parecer jurídico ainda não estava concluído durante sua administração.
Assim, o processo passou para o governo Tarcísio de Freitas, iniciado em janeiro de 2023.
A decisão permaneceu sob análise até agora.
Fama nas redes
Antes de chegar ao Congresso, Da Cunha conquistou grande audiência publicando vídeos de operações policiais.
O conteúdo ajudou a transformar o delegado em uma celebridade digital.
Atualmente, ele reúne milhões de seguidores nas principais plataformas.
Segundo levantamento publicado pelo g1, seu canal no YouTube ultrapassa 3,7 milhões de seguidores.
No Instagram, o parlamentar acumula mais de 2 milhões.
Entretanto, a exposição das operações também provocou questionamentos dentro da própria Polícia Civil.
Em 2021, Da Cunha chegou a ser afastado preventivamente das funções.
Além disso, teve armas e distintivo recolhidos.
Naquele período, ele também enfrentava procedimentos internos relacionados à forma como utilizava as redes sociais.
Pouco depois, pediu licença não remunerada e entrou definitivamente na disputa eleitoral.
Da Polícia Civil para a Câmara
Da Cunha concorreu a deputado federal em 2022 e conquistou mais de 180 mil votos em São Paulo.
Com isso, deixou temporariamente a atividade policial para assumir uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Ele foi eleito pelo Progressistas e posteriormente passou para o União Brasil.
A página oficial da Câmara registra Carlos Alberto da Cunha como deputado federal por São Paulo.
Agora, enquanto tenta renovar o mandato nas eleições de 2026, perde definitivamente o cargo que deu origem ao nome “Delegado Da Cunha”.
A demissão não retira seu mandato de deputado federal.
Entretanto, rompe o vínculo funcional com a Polícia Civil paulista.
Outros processos
Da Cunha também responde a outros casos na Justiça.
Segundo o Metrópoles, o deputado tornou-se réu por lesão corporal, ameaça e dano qualificado contra uma ex-companheira.
O parlamentar nega as acusações.
Já no episódio do cativeiro, o g1 informa que ele virou réu em 2026 por acusações de abuso de autoridade e constrangimento ilegal relacionadas à simulação da ação policial.
O caso ainda não havia sido julgado.
A demissão desta quinta-feira, porém, ocorreu na esfera administrativa.
Com a decisão de Tarcísio, termina formalmente a ligação de Carlos Alberto da Cunha com a Polícia Civil de São Paulo, instituição onde construiu a notoriedade que posteriormente levou para as redes sociais e para a política.