De Ciro a Fonteles: a aposta em governadores para comandar a Fazenda atravessa 32 anos
Cotado para a equipe de Lula, governador do Piauí tem trajetória que remete à escolha de Ciro Gomes em 1994.
A possível indicação do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), para o Ministério da Fazenda de Lula reacende uma comparação com a história política brasileira. Em setembro de 1994, o então presidente Itamar Franco escolheu Ciro Gomes, governador do Ceará, para comandar a economia nacional. Agora, 32 anos depois, a comparação entre Ciro Gomes e Rafael Fonteles revela semelhanças e diferenças nas trajetórias dos dois políticos.
Ambos ganharam projeção nacional ainda jovens e construíram experiência administrativa à frente de governos nordestinos. Entretanto, os contextos econômicos são distintos. Ciro assumiu a Fazenda aos 36 anos, após deixar o governo cearense. Na ocasião, substituiu Rubens Ricupero e recebeu a missão de dar continuidade ao Plano Real, lançado meses antes.
Aprovação dos governadores
Um dos principais pontos da comparação está na avaliação popular. Em agosto de 1994, uma pesquisa Datafolha apontou que 74% dos entrevistados no Ceará classificavam o governo Ciro Gomes como ótimo ou bom. O resultado colocou o governador na liderança entre os chefes estaduais de 12 unidades da Federação analisadas.
Rafael Fonteles também apresenta indicadores expressivos. Em setembro de 2026, o Datafolha registrou aprovação de 70% ao seu trabalho no Piauí. Além disso, 49% dos entrevistados classificaram sua administração como ótima ou boa.
Entretanto, os percentuais não representam a mesma medida. O índice de Ciro corresponde à avaliação positiva da gestão, enquanto os 70% de Fonteles indicam aprovação do trabalho.
Nas eleições de outubro, Fonteles também conquistou a reeleição no primeiro turno, com 70,90% dos votos válidos.
Direito e matemática
A comparação entre Ciro Gomes e Rafael Fonteles também envolve diferenças na formação acadêmica. Ciro é graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e atuou como professor de Direito Constitucional, Tributário e Finanças Públicas.
Antes de governar o Ceará, exerceu mandatos como deputado estadual e prefeito de Fortaleza. Dessa forma, chegou ao Ministério da Fazenda com experiência política e administrativa.

Fonteles, por sua vez, tem formação em Matemática pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Aos 21 anos, concluiu mestrado em Economia Matemática no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa). Além disso, conquistou premiações em olimpíadas internacionais de ciências.
O governador também acumulou experiência empresarial e comandou a Secretaria da Fazenda do Piauí entre 2015 e 2022. Durante esse período, presidiu o Comitê Nacional dos Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), entre 2019 e 2022.
Assim, enquanto Ciro chegou à Fazenda federal com trajetória predominantemente política, Fonteles reúne experiência direta na administração tributária e fiscal.
Desafios econômicos
As diferenças também aparecem nos cenários econômicos enfrentados pelos dois governadores. Em 1994, Ciro assumiu a Fazenda durante a consolidação do Plano Real. Naquele momento, o governo buscava preservar a estabilidade monetária e fortalecer a confiança na nova moeda.
No Piauí, Fonteles combina investimentos em infraestrutura e expansão dos serviços públicos com medidas de controle fiscal. Entretanto, sua administração também enfrenta desafios nas contas estaduais.
Em 2025, o governo piauiense aprovou uma regra para limitar o crescimento das despesas. Além disso, levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, em outubro de 2026, apontou déficit primário acumulado de R$ 3,7 bilhões no período analisado da gestão.
Por outro lado, o levantamento também registrou aumento dos investimentos e redução do peso das despesas com pessoal.
Caso assumisse a Fazenda, Fonteles encontraria um cenário marcado pelas preocupações com o equilíbrio fiscal federal. Além disso, teria de lidar com a reação dos mercados à reeleição de Lula e com as negociações no Congresso Nacional.
O precedente de 1994
Apesar das semelhanças, a comparação entre Ciro Gomes e Rafael Fonteles apresenta uma diferença fundamental. Em 1994, Itamar Franco confirmou a nomeação de Ciro. Já a possível indicação de Fonteles permanece no campo das articulações políticas.
Em 26 de outubro, o governador afirmou que não havia discutido qualquer cargo no governo federal com Lula. Além disso, declarou sua intenção de assumir o novo mandato no Piauí.
No dia seguinte, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a composição da futura equipe econômica ainda não estava definida.
Caso aceitasse o ministério, Fonteles teria de deixar definitivamente o governo estadual. Nesse cenário, o vice-governador eleito, Washington Bandeira (PT), assumiria o comando do Piauí.
Portanto, o precedente de Ciro demonstra que a saída de um governo estadual diretamente para o Ministério da Fazenda não seria inédita. Entretanto, a eventual escolha de Fonteles ainda depende de uma decisão de Lula.
A comparação entre os dois episódios também evidencia o peso da experiência administrativa, da formação técnica e do respaldo político na escolha de quem comandará a economia brasileira.