Dívida ligada à Selic encosta no teto do Tesouro
Tesouro poderá revisar em setembro a faixa prevista para os títulos com juros flutuantes
A dívida ligada à Selic alcançou 49,32% da dívida pública federal em junho. Portanto, aproximou-se do limite de 50% definido pelo Tesouro para 2026.
Em maio, esses títulos representavam 48,99% do total.
Além disso, a dívida federal cresceu 2,61% e encerrou junho em R$ 9,3 trilhões.
Os dados reforçam o debate sobre o custo dos juros para o governo. Afinal, quase metade da dívida acompanha diretamente as mudanças na taxa básica.
Emissões e juros
O crescimento mensal resultou de dois movimentos.
O Tesouro realizou emissões líquidas de R$ 142,3 bilhões. Enquanto isso, os juros acrescentaram R$ 93,5 bilhões.
A Selic está em 14,25% ao ano.
Embora tenha recuado desde março, a taxa permanece elevada e encarece os títulos vinculados ao indicador.
Quando o Banco Central eleva a Selic, o rendimento desses papéis aumenta rapidamente.
Consequentemente, o custo da dívida também cresce.
Por outro lado, uma redução dos juros pode diminuir essa pressão.
Contudo, o Banco Central condiciona novos cortes à trajetória da inflação e da atividade econômica.
Investidores buscam proteção
O Tesouro ampliou a venda das Letras Financeiras do Tesouro, conhecidas como LFTs.
Esses papéis acompanham a Selic e oferecem proteção contra oscilações dos juros.
As LFTs representaram 71% das emissões consideradas pela área técnica em junho.
Até 28 de julho, a participação alcançava 67,8%.
Investidores aumentaram a procura por esses títulos diante das tensões internacionais e das preocupações fiscais brasileiras.
Além disso, reduziram o interesse por papéis de prazo maior.
Esse comportamento facilita a captação de recursos pelo governo durante períodos de instabilidade.
Entretanto, amplia a exposição do Orçamento às decisões monetárias.
Meta poderá mudar
O Plano Anual de Financiamento estabeleceu uma faixa entre 46% e 50% para os títulos com juros flutuantes em 2026.
Segundo o coordenador-geral de Operações da Dívida Pública, Helano Dias, o Tesouro poderá revisar esse intervalo em setembro.
A mudança não representaria, necessariamente, uma dificuldade para pagar os compromissos.
Porém, indicaria uma alteração na estratégia inicialmente planejada.
O Tesouro busca equilibrar títulos prefixados, papéis corrigidos pela inflação, dívida cambial e instrumentos ligados à Selic.
Assim, procura distribuir custos e riscos.
Em dezembro de 2025, os títulos flutuantes representavam 48,3% da dívida.
Naquele momento, o governo projetava estabilidade dessa participação durante 2026.
Por que o perfil importa
A dívida pública financia despesas que superam a arrecadação e substitui títulos que chegam ao vencimento.
Portanto, sua composição afeta diretamente as contas federais.
Títulos ligados à Selic oferecem menor risco imediato aos investidores.
Por outro lado, transferem parte das oscilações dos juros para o governo.
Os papéis prefixados garantem uma taxa conhecida até o vencimento.
Entretanto, investidores costumam exigir remunerações maiores quando percebem riscos econômicos ou fiscais.
Já os títulos corrigidos pela inflação ajudam a alongar os prazos.
Contudo, o Tesouro considerou elevados os custos exigidos pelo mercado para novas emissões.
Impacto político
O aumento da dívida ligada à Selic aproxima as políticas fiscal e monetária.
Afinal, decisões do Banco Central passam a produzir efeitos mais rápidos sobre os custos federais.
Ao mesmo tempo, a percepção sobre gastos, receitas e cumprimento das metas fiscais influencia as condições exigidas pelos investidores.
Por isso, o tema deverá aparecer no debate econômico durante a campanha eleitoral.
Governo e oposição apresentam avaliações diferentes sobre equilíbrio fiscal, investimento público e tamanho das despesas.
Contudo, o crescimento da dívida não comprova sozinho uma crise.
A análise também deve considerar prazos, liquidez, arrecadação, crescimento econômico e capacidade de refinanciamento.
Próximos passos
O Tesouro continuará ajustando as emissões conforme a demanda dos investidores.
Além disso, apresentará em setembro a revisão do Plano Anual de Financiamento.
O Banco Central realizará sua próxima reunião sobre a Selic em agosto.
Portanto, a decisão poderá alterar as expectativas sobre o custo futuro da dívida.
Enquanto isso, o principal indicador será a participação dos títulos flutuantes.
Caso ultrapasse 50%, o Tesouro precisará rever formalmente a meta anual.