Flávio impõe condições para abrir sigilos, Lula aceita e cobra conta ligada a advogado
Troca de desafios começou no debate da Band, passou por pedidos ao TSE e ganhou novo capítulo nesta quarta-feira, após candidato do PL exigir dados de assessor, instituto e cartão corporativo
O desafio lançado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a Flávio Bolsonaro (PL) durante o debate da Band, no domingo (18), transformou-se em uma disputa sobre a divulgação de informações financeiras e telefônicas dos dois candidatos à Presidência. Após três dias de cobranças públicas e manifestações das campanhas, Flávio afirmou nesta quarta-feira (21) que aceita abrir seus sigilos, desde que o adversário cumpra uma série de condições. Horas depois, a campanha petista anunciou que Lula concorda com as exigências e pediu que o senador também apresente os dados relacionados ao advogado Willer Tomaz.
A sequência começou quando Flávio acusou Lula de corrupção durante o primeiro confronto televisivo do segundo turno. O presidente respondeu propondo que ambos divulgassem seus sigilos bancário, fiscal e telefônico, incluindo informações de familiares e empresas. Flávio não assumiu o compromisso naquele momento. No dia seguinte, segunda-feira (19), Lula retomou o desafio durante um ato de campanha em Porto Alegre e anunciou que formalizaria a proposta perante a Justiça Eleitoral.
Na terça-feira (20), os advogados de Lula protocolaram no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um requerimento oferecendo a divulgação dos dados dos últimos oito anos. O documento incluía o presidente, a primeira-dama Janja, os cinco filhos do petista e empresas vinculadas à família. A condição era que Flávio adotasse medida equivalente, abrangendo também os pais, irmãos, esposa e pessoas jurídicas relacionadas ao senador.
A pressão continuou ao longo da terça-feira. Enquanto Lula repetia o desafio em atos de campanha, integrantes da equipe de Flávio afirmaram à imprensa que o candidato não pretendia aceitar a proposta. Nos bastidores, aliados do senador classificavam a iniciativa como uma tentativa de criar desgaste político na reta final da eleição. A avaliação mudou publicamente nesta quarta-feira.
Flávio aceita desafio, mas amplia exigências
Durante um evento em Guarulhos, na Grande São Paulo, ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), Flávio Bolsonaro afirmou que aceitaria divulgar os próprios sigilos, mas estabeleceu condições adicionais. Entre elas, exigiu informações bancárias e telefônicas de Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete da Presidência; dados do Instituto Lula; registros de gastos com o cartão corporativo; e informações sobre visitantes dos palácios presidenciais.
Marcola é investigado por movimentações financeiras relacionadas à lobista Roberta Luchsinger, que afirma ter realizado empréstimos pessoais ao ex-assessor. Flávio também solicitou documentos sobre encontros entre Lula e o banqueiro Daniel Vorcaro, além de registros de voos oficiais. A campanha do PL formalizou as condições no TSE e declarou disposição para apresentar informações financeiras e telefônicas do senador referentes aos últimos 20 anos.
Campanha de Lula aceita condições e devolve cobrança
A resposta veio na tarde desta quarta-feira. Em entrevista coletiva, o senador Camilo Santana (PT-CE), integrante da coordenação da campanha de Lula, informou que o presidente não se opõe às exigências apresentadas por Flávio. Segundo Camilo, a nova manifestação será protocolada no TSE nesta quinta-feira (22), às 11h. A campanha petista condiciona a concordância ao cumprimento integral da proposta de divulgação apresentada anteriormente.
Camilo também questionou a ausência da empresa Alcazar Holdings na relação apresentada pela equipe de Flávio. A empresa, sediada em Portugal e ligada ao advogado Willer Tomaz, aparece em investigações da Polícia Federal sobre movimentações financeiras e possíveis vínculos bancários com o senador. Reportagens apontaram que Flávio teria figurado como usuário com poderes de movimentação de uma conta relacionada à companhia. O candidato nega ter mantido a relação bancária descrita nas apurações. A eventual responsabilidade criminal dos envolvidos ainda depende das investigações e das decisões judiciais.
Com as manifestações dos dois lados, a discussão entrou em uma nova fase. Lula já apresentou um requerimento condicionado à reciprocidade, enquanto Flávio formalizou sua contraproposta com exigências adicionais. A concordância anunciada por Camilo, porém, não significa que os sigilos de todos os citados tenham sido efetivamente abertos. A divulgação de dados de terceiros depende das autorizações legalmente exigidas ou de decisão judicial, e o TSE ainda precisa analisar o alcance dos pedidos. O caso permanece em discussão a quatro dias do segundo turno, marcado para domingo (25).