Vitória democrata nos EUA coloca futuro de Flávio Bolsonaro em xeque
Controle do Congresso amplia poder da oposição para investigar acolhimento ao senador brasileiro, que recebeu autorização de Trump para permanecer no país.
A vitória democrata nos EUA, nas eleições de meio de mandato realizadas nesta terça-feira (3), alterou o equilíbrio de forças em Washington e abriu uma nova frente de incerteza para Flávio Bolsonaro (PL). O senador, que deixou o Brasil após perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), encontrou abrigo nos Estados Unidos com autorização de Donald Trump. Agora, o governo americano terá de lidar com um Congresso controlado pela oposição.
Os democratas conquistaram a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, segundo projeções da Associated Press e da Reuters. O resultado representa uma derrota política para Trump, que havia conseguido manter o Partido Republicano alinhado à maior parte de sua agenda durante os dois primeiros anos do segundo mandato.
A mudança, entretanto, não retira do presidente o controle sobre a política migratória. Trump continuará na Casa Branca, enquanto os democratas passarão a dispor de instrumentos mais amplos para fiscalizar decisões do Executivo. Entre os assuntos que podem entrar na agenda está o tratamento concedido à família Bolsonaro.
Flávio entra na mira
A atuação democrata sobre o caso começou antes mesmo da eleição. Em 29 de outubro, um grupo de 25 deputados enviou uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, cobrando esclarecimentos sobre uma possível participação de autoridades americanas na saída de Flávio do Brasil.
Os parlamentares questionam se o Departamento de Estado, a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília ou outras agências federais prestaram assistência ao senador, apesar da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que determinou a entrega de seus passaportes e proibiu sua saída do território brasileiro.
Flávio cruzou a fronteira com a Argentina em 27 de outubro e chegou a Miami no dia seguinte, acompanhado da mulher e das duas filhas. A Polícia Federal investiga as circunstâncias da viagem. O senador é alvo de inquéritos que apuram suspeitas de lavagem de dinheiro e outras irregularidades. Ele nega as acusações e afirma sofrer perseguição política.
O governo americano concedeu a Flávio uma autorização temporária de permanência, conhecida como discretionary parole, com validade prevista até outubro de 2027. O instrumento permite a entrada e a estadia por prazo determinado, mas não equivale à concessão de asilo político.
Rubio negou que Washington tenha organizado a saída do senador do Brasil. O secretário, contudo, confirmou que Trump decidiu pessoalmente permitir sua entrada nos Estados Unidos. Reportagens da imprensa americana apontaram a participação de Jason Miller, aliado de Trump, na organização do avião particular utilizado pelo brasileiro.
Democratas e Brasil
O resultado eleitoral também evidencia uma mudança na posição ocupada pelos dois principais partidos americanos em relação à política brasileira. Durante décadas, governos democratas e republicanos adotaram medidas de intervenção na América Latina, frequentemente orientadas por interesses estratégicos dos Estados Unidos.
O caso brasileiro mais emblemático ocorreu em 1964. O governo de Lyndon Johnson, democrata, apoiou a derrubada do presidente João Goulart e preparou uma operação de suporte logístico aos militares golpistas, conhecida como Operação Brother Sam. A aproximação com setores contrários a Goulart já havia avançado durante a administração de John F. Kennedy.
Mais recentemente, a política externa de Joe Biden também acumulou controvérsias. A retirada americana do Afeganistão, em 2021, terminou com o retorno do Talibã ao poder, embora o acordo que estabeleceu a saída das tropas tivesse sido negociado anteriormente por Trump. Na Ucrânia, Biden ampliou o apoio militar a Kiev após a invasão russa de 2022, aprofundando o envolvimento americano no conflito.
A oposição dos democratas a Trump, portanto, não representa necessariamente uma revisão do histórico de atuação dos Estados Unidos no exterior. No caso brasileiro, a aproximação de interesses ocorre em um contexto específico: o alinhamento político do presidente republicano com a família Bolsonaro e os questionamentos sobre a atuação americana nos assuntos internos do Brasil.
Trump, por sua vez, transformou a identidade política dos republicanos ao fortalecer uma agenda nacionalista, personalista e confrontadora das instituições tradicionais de Washington. Sua relação com os Bolsonaro passou a integrar esse ambiente de alianças políticas que ultrapassam as fronteiras americanas.
O limite da vitória
Apesar do novo cenário, uma maioria democrata no Congresso não significa que Flávio Bolsonaro perderá automaticamente a autorização para permanecer nos Estados Unidos. A concessão e a eventual revogação de permissões migratórias continuam sob responsabilidade do Executivo, observadas as regras da legislação americana.
Os democratas poderão, entretanto, convocar autoridades, solicitar documentos e investigar se houve favorecimento ao senador brasileiro. Essas iniciativas podem produzir desgaste político para a Casa Branca, mas não equivalem a uma decisão de deportação.
A nova legislatura americana assumirá em janeiro de 2027. A carta enviada pelos 25 congressistas democratas a Marco Rubio solicita respostas por escrito e a disponibilização de funcionários do Departamento de Estado para esclarecimentos até 13 de novembro.